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António Feijó

D. QUIXOTE
Epopeia de D. Quixote
Poema
Janeiro de 1880
 

  

 

Cenário

Nem um astro no céu, nem um clarão na terra!
Tudo o que a Natureza herculeamente encerra
No seio maternal fecundo e criador,
Tremia n'este imenso e lívido pavor
Que pairava no espaço ameaçadoramente….
Profunda solidão - Noite pesada e quente.
Rebentam os trovões ecoando na quebradas…
O raio estala e fura as nuvens condensadas.

Dom Quixote

I

Noite apocalíptica. O raio cruza a imensidade e ao longe o mar uiva sinistramente. De quando em quando, um relâmpago ilumina a escuridão. A cena passa-se no cemitério da Urbs.

Então Jesus surgiu do túmulo em que dorme,
E a lua apareceu como uma hóstia enorme,
N'uma nesga de céu lavado das procelas.
Os olhos de Jesus brilhavam como estrelas
Na sua palidez espiritualizada,
Magro, d'essa magreza estranha e resignada
D'um asceta abraçado ao poste dos tormentos,
Crestado pelo sol, molhado dos relentos,
Sempre a cismar na paz das redenções celestes.
E pôs-se a caminhar nas áleas de ciprestes
Por entre os mausoléus e os túmulos pomposos
Procurando, através dos mármores preciosos,
Com a fronte curvada e o manto em desalinho,
A sepultura rasa, o túmulo mesquinho,
Onde lance o perdão do seu olhar divino…

Jesus aproxima-se do túmulo de D. Quixote, pára um instante numa contemplação abstracta e fala.

- "Levanta-te do leito, ó magro paladino!
Empunha novamente a flamejante espada!
Veste a rija couraça indómita, estrelada
De sóis, brunida à luz vibrante das auroras!
Afivela de pronto as rútilas esporas,
Cavalga o teu corcel, vai através do mundo
Derramando do olhar nostálgico e profundo
Essa grande expressão heróica de bondade!...
O raio que acentua a escura imensidade
Nesta noite igual às noites do profeta,
Buscando o teu sepulcro, ó meu sombrio Atleta!
Faz-te ouvir o clamor da minha voz tremenda,
Que te chama ao combate, às glórias da contenda,
Como um clarim batendo as cargas da batalha…
Ergue-te, e despedaça as dobras da mortalha;
Não ouves o Dever e o Direito oprimidos,
Os gritos da inocência, o coro dos vencidos,
Clamando por vingança?...
                                  E tu, mudo e gelado
Na fria solidão do túmulo, deitado
Como a múmia d'um rei, n'um subterrâneo antigo!
Ó herói! ó herói! Ergue-te do jazigo!
Despedaça os grilhões da Morte escura e triste,
Vem contemplar o mundo, o mundo que tu viste
Do grande parapeito aéreo dos teus sonhos!...
Não ouves no sepulcro os ímpetos medonhos
D'uma voz que troveja e se perde no espaço,
Como a nota que cai d'uma trombeta d'aço
Dominando a procela e as grandes ventanias?
É o supremo rugir das cóleras sombrias
O bramido feroz d'alguns milhões de párias,
É toda a multidão das almas mercenárias
A clamar pela aurora augusta do resgate!...
Vamos, meu paladino! É prestes o combate!
Vão os tronos ruindo e as pedras dos altares,
Como núncios talvez de lutas singulares
Na tristeza que invade os corações humanos…
Tudo se desmorona. Há quasi dois mil anos
Quando expirei na cruz, erguida no Calvário,
Meu grande coração, firme como um sacrário,
Espalhou pela terra um íris de bonança…
Mas a Fé perverteu-se e aniquilou a esperança,
A crença abastardou-se… É necessário, pois,
Que surja à luz do dia uma legião de heróis,
Para esmagar, bater, n'um esforço tremendo,
Os redutos da sombra e treva, combatendo
Na conquista do Bem, do Belo e da Verdade!"

Jesus calou-se então. A horrível tempestade
Mugia pelo espaço em temporal desfeito,
Vergavam para o solo as árvores, rugia
Pela floresta enorme um salmo d'agonia
Como um coro infernal no extremo paroxismo.
A terra estremecia; abriu-se algum abismo
Na surda oscilação dos grandes terramotos.
Parecia que infernais espíritos ignotos
Andavam pelo espaço a praguejar raivosos
Para abafar talvez os ecos melodiosos
Daquela voz profunda, esplêndida e suave,
Que até quando se exalta é como um trilo d'ave
Cantando ao pôr do sol na púrpura do poente…

Jesus continuou mais amargo e plangente:

- "Tu foste escarnecido e foste apedrejado,
como um sonho grotesco e extinto do passado,
louco devaneador de flóreas primaveras!
Viste o mundo através da lente das quimeras
E zombaram de ti, batalhador sublime!
Julgaste ser a força, a força que redime,
A força que é um braço augusto do Direito;
E tudo quanto é justo ardia no teu peito
Batia no teu grande e austero coração…
Fanatizaste a honra, o amor, a Abnegação,
Na febre de ideal que te queimava o crânio…
E aquele génio mau, mineiro subterrâneo,
Que anda nos corações gritando a todo o instante,
Como um ácido morde o ferro lampejante,
Mordeu-te com a garra adunca da Ironia!
Mas quando a Morte, enfim, na hora da agonia
Poisou na tua fronte a sua mão funesta,
Vendo o santo clarão d'essa consciência honesta
Através do nevoeiro espesso da loucura,
Mostrou-te * no esplendor da auréola mais pura
Que a tristeza teceu com névoas de saudade…
Vamos! Anda lutar * nas trevas desta idade!
Lutar como um leão neste hórrido marasmo,
Reabilita-te, enchendo os corações de pasmo,
Esmagando a opressão e destroçando o egoísmo…
Se caíres por fim no enorme cataclismo,
Vencido como o herói que morre no seu posto,
A grandeza que encerra o teu tranquilo rosto,
O clarão que derrama o teu olhar profundo,
Há-de inundar a terra, há-de inundar o mundo,
D'uma enorme explosão sublime de bondade" -
Repetem-se os trovões; redobra a tempestade…

Abre-se o túmulo. D. Quixote aparece em frente do Cristo.

Trava-se um diálogo.

D. Quixote

- "Ouvi a tua voz que tristemente clama
como a voz d'um irmão que de longe me chama
              na última aflição…
Ouvi a tua Voz, o teu Verbo indignado
Como o grito que sai d'um peito apunhalado
              Nas trevas, à traição…
E vim da sombra escura e trágica da Morte,
A ti que és o meu guia, a ti que és o meu norte,
              Saudar-te ainda uma vez;
Beijar, firme e contrito, a fímbria do teu manto,
Vendo a aurora d'amor que é feita do teu pranto
              Na tua palidez.

Eu que andei pelo mundo em louco desatino,
Forte na minha fé, cego como o destino,
Em busca d'uma ideia
Procurando apagar as ânsias do Ideal
N'essa rosa de luz, selvática vestal,
A ingénua Dulcineia…

Eu que fui um herói indómito e fantástico
Que andei sobre um corcel nervosamente elástico
Na conquista do Bem;
Obtive em recompensa as vaias e os sarcasmos
Em vez d'essa explosão de rubros entusiasmos
Da glória, ingrata mãe;

Porque te vejo assim sombrio e taciturno,
Eu deixo, à tua voz, o cárcere soturno
Aonde a Morte existe,
E vou cumprir de novo essa missão que ordenas,
Ó grande sonhador cheio de horríveis penas
Amargurado e triste!

Voltarei novamente ao mundo, entusiasmado,
E opondo à tirania o meu peito blindado,
Firme como trincheira,
Hei-de trazer-te enfim no mar das tuas mágoas *
Como a pomba que foi levada sobre as águas
O ramo da oliveira!..."

O Cristo

- "Envolvido no arnês dessa grandeza estóica,
vai cumprir, vai cumprir, teu último destino…
Eu vejo nessa tua inconsciência heróica
O antigo campeador, o antigo paladino…
Faísca o mesmo amor no teu olhar amigo,
Bate com força igual teu coração divino:
Perdão, se te roubei à paz do teu jazigo
Para te ver entrar na temerária liça;
Mas o mundo precisa o teu exemplo antigo!

Tem o manto rasgado a estátua da Justiça…
A fé não tem redil; a coerência treme
Como um forçado às ordens do açoute da Injustiça.
A igreja tiraniza, o escravo chora e geme
D'olhos no céu sem ver a estrela azul do Norte;
A humanidade vai, sem bússola, sem leme,

Como uma nau perdida, aos pélagos da Morte!
E eu ando a soluçar neste vaivém incerto,
Rasgado pela dor, curvado pela Sorte,
Como um Deus infeliz no seu altar deserto!"

Dom Quixote partiu; Jesus tinha no olhar
uma vaga doçura etérea de luar,
E a tristeza do céu na angústia vespertina,
Quando à beira do lago o nenúfar inclina
Melancolicamente a virginal corola…

O temporal em fúria o açoute desenrola,
Às cegas, no esquadrão selvagem dos tufões…
Uiva sinistramente, erguendo os vagalhões
Às nuvens, arrancando as árvores, torcendo
Os robles, destruindo as casas, combatendo
E espalhando o terror d'um pânico sagrado…

Jesus sentia o peito opresso e amargurado:
A descrença esmagava o Cristo Justiceiro…
Ecoavam pela sombra os passos do guerreiro,
No estrépito marcial dos acicates d'aço…

De repente, um clarão iluminando o espaço
- Relâmpagos cruzando a pura * imensidade -
mostrou-lhe nessa intensa e vasta claridade,
como um monge na sombra escura da estamenha,
um vulto sepulcral d'uma * atitude estranha,
de longe acompanhando o Cavaleiro Andante…

Jesus velou de pranto o seu olhar radiante Correndo-lhe na face em bagas, como estrelas… Num retalho de céu, lavado das procelas, A lua apareceu como uma hóstia enorme…

E Jesus ao baixar ao túmulo em que dorme
Viu nessa aparição que o seu olhar assombra
O fantasma do Egoísmo a caminhar na sombra!... **

 

* Dúvidas de transcrição a partir do manuscrito autógrafo.

** No final do poema manuscrito autógrafo, pode ler-se: "Comentários filosóficos del Don Quijote por Don Nicolas Dias de Benjumea / Barcelona"

 



António Feijó (1859, Ponte de Lima, Portugal - 1917, Estocolmo, Suécia)
Transcrito da edição: António Feijó, Poesias Dispersas e Inéditas, Porto, Caixotim, 2005
(edição de J. Cândido Martins). ISBN 972-8651-73-2

Enviado por Cândido Oliveira Martins (Universidade Católica Portuguesa) 7/10/2006



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