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feediconRSS Vol.2, núm.2grisAR2010 grisARUniversidad Complutense de Madrid ISSN: 1989-4015grisAR

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Imaginar Lisboa
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António Branquinho Pequeno

Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

O imaginário de qualquer cidade pode estar associado a uma personalidade emblemática da cultura, da ciência ou das letras. Revisitamos Kafka ao percorrer as ruas de Praga, Buenos Aires lembra-nos Jorge Luís Borges ou Carlos Gardel. Não faltariam nomes notáveis associados a Alexandria, em primeiro lugar Alexandre o Grande, mais tarde os Ptolomeus e Cleópatra. Mesmo que não recordássemos esses nomes, bastaria no nosso tempo pensar em Lawrence Durrel e na sua "tetralogia", no Quarteto de Alexandria. Bem longe de nós, Samarkanda é, pelas piores razões, tragicamente inseparável de Gengis-Khan, que a arrasou com a sua cavalaria. Mais longe ainda, Hamurabi leva-nos à Babilónia desaparecida na antiga Mesopotâmia, mais de 1500 anos a.C. Em Lisboa, inevitavelmente, esbarramos com Fernando Pessoa, os seus heterónimos e o Chiado. Outros imaginários se poderiam inscrever na sua arquitectura e no urbanismo: qualquer um de nós poderia viajar no tempo, ao admirar o mosteiro dos Jerónimos, o convento de Mafra, ou o museu dos Coches. Ou então, já perto de nós, imaginar os novos rumos arquitectónicos, através do roteiro da obra de Cassiano Branco, a começar pelo antigo cinema Éden, nos Restauradores, e o antigo hotel Vitória, na Avenida da Liberdade, até às belas moradias das Avenidas Antonio José de Almeida e Rovisco Pais. Ou ainda, observar a imagem que o "Estado novo" da ditadura salazarista quis imprimir a Lisboa, através das marcas arquitectónicas da "monumentalidade" do Instituto Superior Técnico à Alameda Afonso Henriques e ao Areeiro. Mais um roteiro, uma leitura de Lisboa, a retratar diferentes períodos da história politica e cultural portuguesa. Mas poder-se-ia também imaginar Lisboa através da paleta dos seus pintores e artistas. E por que não ficar em companhia dos que a escreveram e daí tirar certas ilações para uma Sociologia da cidade? E por que não ver Lisboa e os seus bairros através das marchas de Santo António? Ou através dos seus cafés e tertúlias? Um sem número de temas e de abordagens, tendo como palco a cidade.

A minha opção é aqui bem modesta nestas singelas linhas. Procurarei apenas pôr em evidência alguns aspectos do imaginário português através do modo como alguns poetas viram e sentiram Lisboa, o que inclui também aquela poesia que o fado de Lisboa interiorizou e fez sua. Muito embora muitas dessas letras privilegiem, não Lisboa no seu todo, mas este ou aquele bairro, por virtude das gentes que os habitam, pela atmosfera e tradição que lhes são próprias. Disso é bom exemplo a letra de um fado que tem justamente por nome "Bairros de Lisboa", de Carlos Conde e Alfredo Marceneiro:

Vamos ambos pela mão
De duas rimas de Fado
Aos Bairros com tradição
Da boémia e do passado
Não quero entrar em despique
Mas se o quisesse fazer
Seria campo de Ourique
O primeiro a enaltecer

Mas o Bairro de mais fama
Mais fadista Mais Marujo
É a linda e velha Alfama

Do Norberto de Araújo
Lembra mais a nostalgia
Embora do mesmo agrado
Dum resto de Mouraria
Que ainda tem sabor a fado

Bairros que o Povo acarinha
Tornam mais bela a fagueira
Esta Lisboa velhinha
Tão velhinha e menineira
Esse Povo audaz boémio
Que viveu em sobressalto
Era amigo, era irmão gémeo
Dos faias do Bairro Alto

Entre os Bairros de Lisboa
Há um que é sempre criança
Vê lá bem se a Madragoa
Não vive cheia de esperança
Nunca da mente nos passa
Essa boémia sem par
Que foi de Belém à Graça
De Benfica ao Lumiar

A tradição nunca finda
Ainda ninguém a matou
E o presente vive ainda
Do passado que ficou
E pronto a volta esta finda
Para que andar mais à toa
Se Lisboa e toda linda
Se o nosso bairro é Lisboa [...]

De Lisboa tens a coroa
Velha Lisboa da Madragoa
Quantos heróis tens criado

Sete Colinas em teu colo de cetim
Onde as casas são boninas
Espalhadas em jardins

E no teu seio, certo diz que foi gerado
E cantado pelo povo
Sonhador o nosso fado

Visivelmente, a primazia aqui é dada a "Campo de Ourique", assinalando no entanto de passagem que o bairro mais fadista e mais marujo é o de Alfama e sem deixar de realçar a Madragoa, "um bairro que é sempre criança".

Muitos foram os poetas que cantaram Lisboa. Recordarei David Mourão Ferreira, a enaltecer aqui a ligação de Lisboa ao rio, aos seus actores e à faina marítima.

É varina, usa chinela,
Tem movimentos de gata
Na canastra a caravela
No coração a fragata

Em vez de corvos no xaile
Gaivotas vêm pousar
Quando o vento a leva ao baile,
Baila no baile co'o mar

É de conchas o vestido,
Tem algas na cabeleira,
E nas veias o latido
Do motor de uma traineira
Vende sonho e maresia,
Tempestades apregoa
Seu nome próprio é Maria
Seu apelido Lisboa

Uma Lisboa feminina, mulher e varina, cuja cumplicidade com a cidade é tal, que o seu apelido é Lisboa. Cumplicidade que se estende à orla marítima, pois o mar é o seu par, quando o vento a leva ao baile. De conchas é feito o seu vestido e tem algas na cabeleira.

Vejamos agora um outro poema, "Menina e moça" (Ary dos Santos / Paulo de Carvalho), um fado emblemático.

Lisboa menina e moça
Letra e musica de Ary dos Santos e Paulo de Cravalho / Interpretado por Carlos do Carmo

No castelo, ponho um cotovelo
Em Alfama descanso o olhar
E assim desfaz-se o novelo
De azul e mar
À ribeira encosto a cabeça
A almofada, na cama do Tejo
Com lençóis bordados à pressa
Na cambraia de um beijo

Lisboa menina e moça, menina
Da luz que os meus olhos vêem tão pura
Teus seios são as colinas, varina
Pregão que me traz à porta, ternura
Cidade a ponto luz bordada
Toalha à beira-mar estendida
Lisboa menina e moça, amada
Cidade mulher da minha vida

No terreiro eu passo por ti
Mas da graça eu vejo-te nua
Quando um pombo te olha, sorri
És mulher da rua
E no bairro mais alto do sonho
Ponho o fado que soube inventar
Aguardente de vida e medronho
Que me faz cantar

Lisboa menina e moça, menina
[...]
Lisboa no meu amor deitada
Cidade por minhas mãos despida
Lisboa menina e moça amada
Cidade mulher da minha vida

Aqui, Lisboa identifica-se sobretudo com uma "menina e moça", amada: "Cidade mulher da minha vida / Os teus seios são as colinas / Da graça eu vejo te nua / Lisboa no meu amor deitada". Menina e mulher portanto, ambas amadas e erotizadas. E, mais adiante: "Cidade por minhas mãos despida". O que não impede no entanto o poeta de a ver "tão pura"! Mas como evitar alguma conotação pedófila ou incestuosa quando se despiu sexualmente a cidade-menina, um desejo aliás em vias de ser consumado (despida)? . As letras de qualquer canção dizem mais do que parecem e, como tal, devem ser descodificadas. O poema não parece porém ter incomodado, embora as palavras valham não só em profundidade como à sua superfície. Não sofreu qualquer reserva, antes pelo contrário, o poema foi bem acolhido e interiorizado, tratando-se da letra de um dos fados mais conhecidos e apreciados do grande público, não só pela musicalidade como pela letra. A contrariar o que acaba de ser dito, nenhuma agressão haverá neste texto, dado que a menina será simplesmente a metáfora da ternura por uma cidade que não tem idade e que tanto pode ser filha, como mãe, mulher da rua ou varina. Mesmo assim, haveria quem pudesse insinuar ser pela via da metáfora que a libido se pode manifestar, o que também é controverso. Há porém uma passagem dum outro fado, Bairros de Lisboa, acima transcrito, que afasta qualquer interpretação mais "perversa", quando aí se fala desta "Lisboa velhinha / Tão velhinha e menineira", em que velhice e a infância se encontram enlaçadas e em que a meninice não tem a idade. No imaginário árabe, a cidade é aliás uma donzela a conquistar e, no caso de a cidade já estar conquistada, a donzela passaria a ser noiva.

Em outros contextos, a cidade pode identificar-se com a mulher-mãe. Nas canções das Brigadas Internacionais da guerra "civil" em Espanha, Madrid era a mãezinha que poderia orgulhar-se dos seus filhos. Há outras descrições de sentimentos para com a cidade amada, menina ou não, como se de um corpo materno se tratasse. Num registo semelhante, este fado de Carlos Rocha e Aníbal Nazaré não está longe dessa imagem materna

Lisboa cidade amiga
Que és um berço de embalar
Ensina-me uma cantiga
Das que tu sabes cantar

Uma cantiga singela
Daquelas de enfeitiçar
Para eu cantar à janela
Quando o meu amor passar
[...]

De qualquer modo, para voltar ao poema, a carga erótica que a cidade transmite é incontornável Ela é "toalha a beira-mar estendida". Estendida para recolher em seu seio os marinheiros que vêm de longe, a fantasmar romances de amor à beira mar tecidos? Neste cenário, a letra deste fado só pode ser interpretada por um homem fadista, ou então haveria que assumir a homossexualidade. Também em Não passes com ela à minha rua e em A mulher que já foi tua, dois fados com letra de Carlos Conde, abaixo transcritos, não vejo como evitar serem interpretados por uma mulher.

Não passes com ela à minha rua
Letra de Carlos Conde / Musica de Fado Alberto / Interpretado por Fernanda Maria

Ao fim de tantos anos de ser tua,
Amaste outra, casaste, foste ingrato,
Vi-te passar com ela à minha rua,
E abracei-me a chorar ao teu retrato!

Podia-te insultar quando te vi,
Ferida neste amor supremo e farto,
Mas vinguei-me a chorar, chorei por ti,
Por entre as persianas do meu quarto!

Eu bem sei que me tentas convencer,
Mas o que tu propões não é bastante,
Se eu não servi pr'a ser tua mulher,
Também não devo ser a tua amante!

Casaste, sê feliz, Deus te proteja,
Não te desejo mal, e tanto assim,
Que não tenho ciúme nem inveja,
Como a tua mulher teve de mim.

Mas olha, meu amor, eu não me importa,
Antes que fosses dela eu já fui tua
Podes passar sozinho à minha porta
Mas não passes com ela á minha rua!

A mulher que já foi tua:
Mudou-se p'ra nossa rua
Aquela que já foi tua
E passa o tempo á janela
Se passas ela sorri
Mas não olha mais para ti
Por me ver a olhar p'ra ela

Mudou-se pr'a nossa
rua A mulher que já foi tua
P'ra que junto dela passes
Não fez tudo o que devia
Pois muito mais eu faria
Se por outra me trocasse.

Muito haveria a dizer sobre estes dois poemas. Se os introduzi aqui foi sobretudo porque, tanto um como outro têm como palco a rua, a rua da cidade onde vivem os actores que constituem um trio relacional, isto é, a mulher casada, o seu marido e a ex-amante deste. É a rua, artéria da cidade que, de certo modo, protagoniza e é palco de toda a história, em articulação com as casas que ela abriga, nesse jogo lúdico interior/exterior.

No primeiro poema, Não passes com ela à minha rua, tem a palavra a ex amante, dirigindo-se ao "seu homem", agora casado. A fidelidade a esse antigo amor continua, mesmo depois desse matrimónio com uma outra mulher ("Podes passar sozinho à minha porta, mas não passes com ela à minha rua"). Fidelidade, mas com algum distanciamento, o que é um elemento novo que não corresponde, para a época ("Estado novo") com a ideologia dominante. A tragédia do abandono que é um tema fatalista recorrente no fado, é aqui negada. Não há vingança, antes algum desprendimento. As regras são portanto outras. Surge um novo modelo na relação da mulher abandonada com o ex amante. Não há ciúme e, se ressentimento existe, é contra aquela a substituiu ("Não tenho ciúme como a tua mulher teve de mim"). E desculpabiliza-se o homem amado que apenas foi ingrato: "Foste ingrato meu amor". Um poema que, ao mesmo tempo, traduz o modo como a mulher interioriza a sua condição: Não servi para ser tua mulher, como se, a seus olhos, apenas a mulher casada pudesse aceder ao estatuto de mulher, chegando mesmo a recusar voltar a ser amante de um homem que entretanto se casou. Neste poema, a rua que serve de palco é aquela em que vive a ex-amante.

No segundo poema, tem a palavra a mulher casada que fala ao marido a propósito da ex-amante dele. A rua referida que serve de palco é aquela em que vive a mulher casada, para onde no entanto, posteriormente, a ex-amante se deslocou. Distanciação, aqui também, dado que no seu discurso, a mulher casada consegue falar ao marido, com "naturalidade" das antigas relações dele, ao ponto de dizer que a ex-amante não fez tudo o que devia para o guardar e que portanto não esteve à altura desse amor.

Em ambos os poemas só as mulheres falam, isto é trata-se de uma história entre mulheres mas protagonizada por um homem ausente que é aquele de quem se fala, mas de quem se ignoram os sentimentos. O homem aqui discute-se mas ele próprio não discute.

Para completar o que já tínhamos referido nas anteriores poesias sobre a Lisboa feminina, constata-se ainda que, não raramente, a antropomorfização da cidade é metonimizada, na relação amorosa, ao privilegiar apenas algumas partes do seu corpo. Uma antropomorfização pagã, estrangeira à santidade: "No teu seio foi gerado o fado" (Fado Bairros de Lisboa), "Sete colinas em teu colo de cetim" (Fado Bairros de Lisboa), "Teus seios são colinas" (Fado Menina e moça), "Que tem de rasto a teus pés a majestade do Tejo" (Fado Lisboa). Esta identificação ao corpo humano filtra também para a linguagem corrente: as artérias da cidade; a sua circulação, como se de vasos sanguíneos se tratasse; o pulmão dos parques e jardins; as entranhas da cidade com seus escoamentos, uma vida subterrânea que se inscreveria no chamado inconsciente freudiano. Até o vento, a brisa ao cair da tarde, é uma carícia à flor da pele. Metáforas estas que revelam a estreita união entre a cidade e os que nela vivem. Mais uma razão para não a hipotecar a interesses economicistas e especulativos. Viver a cidade significa cumplicidade com ela, dificilmente interiorizada pelo turista de passagem, porque só a permanência o permite verdadeiramente. Sem essa vivência, será difícil, senão impossível, tomar o pulso da cidade, para utilizar mais uma metáfora. Duvido que Ruy Belo, o poeta de São João da Ribeira, pudesse ter escrito o admirável poema Na noite de Madrid (em finais de 1971) se não tivesse sentido e interiorizado a noite madrilena ou que, noutras latitudes, o poeta brasileiro Manuel Bandeira pudesse ter escrito Evocação de Recife se não tivesse vivido o Recife da sua infância.

Certo é que, nas poesias de que o fado se apropriou, nunca ou raramente a cidade em si própria é maldição, tal como ocorreu no mito, entre presságios e auspícios, quando Rómulo mata o irmão gémeo Remo para a conquista do trono e funda a cidade de Roma. Lisboa não é maldita mas está no entanto povoada de ambivalências que decorrem da sua própria indefinição. Mais ainda: o que transparece na poesia nada tem a ver com umas cidade agressiva, fálica. Não se canta a estátua do marquês de Pombal nem a de D. Pedro IV do Rossio, nem o padrão dos Descobrimentos de Cottinelli Telmo, como um falo a penetrar os mares, cuja réplica se encontra em Belém, junto ao rio. Também não se canta aqui a virilidade geométrica e quadrada, que foi escolhida como solução urbanística pelo marquês na Baixa pombalina. Em Menina e moça, o Tejo está presente mas sem navegações, sem epopeia. Em vez disso, a ternura e o fascínio. A cidade não é guerreira nem mãe devoradora. Nem corrupta (tão pura). Em vez disso, o redondo dos seios (as colinas). Estas são as imagens fundadoras que resistem.

Para além de mulher, Lisboa tem por vezes o estatuto de princesa casta ou de rainha, como é evidente na letra do Fado Lisboa, de Raúl Ferrão e Álvaro Leal, com interpretação de Eugénia Melo e Castro:

Lisboa casta princesa
Que o manto da realeza
Abres com pejo
No casto beijo

Lisboa tão Linda és
Que tens de rasto a teus pés
A Majestade do Tejo
[...]
De Lisboa tens a coroa
Velha Lisboa da Madragoa
[...]
Sete colinas em teu colo de cetim
Onde as casas são boninas
Espalhadas em jardins
E no teu seio, certo diz que foi gerado
E cantado pelo povo
Sonhador o nosso fado
[...]

Essa "majestade" de Lisboa é ainda evidente na Canção de Lisboa, com letra de Artur Ribeiro e música de Ferrer Trindade: "[...] Nesse teu ar de rainha do Tejo / Hei-de beijar-te Lisboa". Tal como na letra de Euclides Cavaco: "Se Lisboa fosse minha / Talvez fosse mais feliz / Por ela ser a rainha / Das terras do meu país". Ou ainda em Fernando Reis Costa: "Se Lisboa fosse minha / Vivia no seu castelo / Como rei desta cidade / E com meu fado singelo / Soltava toda a saudade".

Em alguns dos poemas da cidade associados à realeza, não se trata apenas de majestade. A cumplicidade cidade-rio é manifesta, uma vez mais.

O Tejo, aos pés da cidade, não nos deve no entanto fazer esquecer que este rio é um amante fálico, apesar do seu estuário uterino e de estar de rasto aos pés de Lisboa. "La Seine", essa é feminina, a beijar Paris. Na relação Paris-la Seine, o elemento masculino é a cidade, salvo algumas excepções literárias, enquanto que na relação Lisboa-Tejo, é o rio que tem esse estatuto. O que não impede que o Tejo seja também "cama", não apenas para Lisboa se deitar, mas para aí se entregar aos prazeres do amor. Por outro lado, se o Tejo é uma cama, a cidade é uma toalha (o casario) à beira-mar estendida, portanto uma cidade não altiva mas vergada. Como vemos, uma vez mais, as ambivalências são visíveis e não se fecham as portas nem à metamorfose nem à homossexualidade. Ambivalências que existem, à partida, no estatuto da própria cidade que é menina, moça e mulher, quando afinal, grande é a diferença entre uma menina e uma moça, ou seja, entre a infância e a adolescência, depois da puberdade.

A cumplicidade entre Lisboa e o Tejo é ainda posta em relevo num poema de José Saramago, a dar relevo ao estatuto uterino, acolhedor e repousante das águas fluviais.

Minha água austral, meu claro rio
Minha barca de sonhos e verdades
Minha pedra de céu e rocha-mãe
Meu regaço de azul no fim da tarde

Versos estes no registo da aliança entre as águas e a morte, a confirmar que o primeiro navegador foi um cadáver e o primeiro caixão uma piroga. Uma leitura antropológica, entre outras.

Gostaríamos de continuar no mesmo registo de linguagem poética e namoradeira entre o Tejo, a cidade e os que nela vivem, mas a realidade impede-o. A escolha abusiva e prepotente da localização do "Centro Cultural de Belém" (CCB) entre o Jerónimos e o Tejo, já tinha duramente apunhalado aquela zona, anos atrás, pela sua localização, ao retirar ao mosteiro a sua grandeza e ao impedir o acesso do olhar ao rio. Hoje também, a Lisboa "da luz que os meus olhos vêem tão pura", como dizia o poeta, continua a ser golpeada. Tutelada pelo governo, a Administração do Porto de Lisboa (APL) comodamente instalada nas poltronas míopes da burocracia, continua a ser, de há muito tempo a esta parte, estrangeira ao interesse público e dona da cidade ribeirinha. Como tal, não consulta nem a menina nem o Tejo. Basta pensar no actual empenhamento em alargar, triplicar, o Terminal de contentores da Doca de Alcântara. O Terminal já aí instalado, que era provisório, se for alargado passaria então a definitivo? A Lisboa amada do poema, a gente dos seus bairros, da Madragoa a Marvila, terá pois que descer à rua para impedir tais desmandos. E como se isto não bastasse, pretende-se renovar a concessão da exploração, do monopólio da "Liscont", a empresa concessionária, até 2047! Então as pilhas de contentores de uma altura considerável, a esquartejar o rio ao longo de cerca de 1,5 km, teriam um impacto visual mínimo, como afirmou um alto responsável do país?! Se continuássemos por esta via a saquear o Tejo, a menina e moça não chegaria sequer a ser mulher. E como imaginar a cidade emparedada com contentores a seus pés? Estamos lidando com obras públicas ou com obras privadas? E não sabem os predadores que os cerca de 13 km de frente de rio são do domínio público?

Curiosamente, a Trafaria e a Cova do Vapor, na margem Sul, já em finais de 2007 tinham sido escolhidos, inclusive com o apoio da APL, como os melhores lugares para a construção de modernas instalações portuárias, o que até um leigo compreende, dado que uma intervenção desta natureza em Alcântara é simplesmente aberrante, numa zona em si já tão congestionada, a impedir mais ainda a ligação com o rio. Como explicar a reviravolta em Abril de 2008? Mas a escolha de Alcântara para os contentores, melhor a compreende ainda quem tem para isso a competência técnica. Vários profissionais, arquitectos e engenheiros de diversos horizontes, inclusive do LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil), alguns com percurso internacional, desde há longo tempo que contrariaram o projecto e alertaram. Sem esquecer Miguel Sousa Tavares que, desde Maio de 2008, forte de argumentos, denunciou essa ideia do alargamento desse Terminal em Alcântara, e que foi à altura talvez a única voz sonora discordante, numa Comunicação social, que tão lesta se mostra para empolar qualquer "fait divers" que surja no horizonte lisboeta.

A outra agressão a Lisboa tem a ver com a instalação prevista de um novo Terminal de passageiros de paquetes (cruzeiros), desta vez na zona Santa Apolónia - Jardim do Tabaco, que prevê um muro de construções na zona com cerca de 6oo metros de longo, a comer ainda mais Tejo, e que iria incluir centros comerciais e um hotel do grupo Altis! Mas que poderosos interesses imperam nas zonas ribeirinhas?

Terminarei esta curta ronda com um poema de Manuel da Fonseca:
Tejo que levas as águas
Correndo de par em par
Lava a cidade das mágoas
Leva as mágoas para o mar

Lava-a de crimes espantos
De roubos fome terror
Lava a cidade de quantos
Do ódio fingem amor

Lava bancos e empresas
Dos comedores de dinheiro
Que dos salários de tristeza
Arrecadam lucro inteiro

Lava palácios vivendas
Casebres bairros de lata
Lava negócios e rendas
Que a uns farta a outros mata

Lava nas águas as grades
De aço e silêncio forjadas
Deixa soltar-se a verdade
Das bocas amordaçadas

Afoga empenhos favores
Vãs glórias ocas palmas
Lava o poder de uns senhores
Que compram corpos e almas

Tejo que levas as águas
[...]

A cidade é memória biológica que as gerações continuamente renovam. Etimologicamente, a palavra procede do latim "civitate", que significa a colectividade dos "cives", isto é, dos cidadãos. Ela é portanto de todos e não apenas de alguns. Por isso, como se pode ler em Manuel da Fonseca, Lisboa se revolta quando maltratada e violada. Não só Lisboa, o Tejo também, pela voz do poeta, que não se limita a dizer ao rio que lave a cidade de mágoas mas que as leve para o mar. Por outras palavras, que as varra para longe da cidade. Uma sábia articulação linguística e poética entre "levar"as águas e as mágoas e "lavar" a cidade de quantos do ódio fingem amor.

Lisboa Abril 2009


BRANQUINHO PEQUENO, Antónino (2009): "Imaginar Lisboa" [en línea]. En: Ángulo Recto. Revista de estudios sobre la ciudad como espacio plural, vol. 1, núm. 1. En: http://www.ucm.es/info/angulo/ volumen/Volumen01-1/articulo02.htm. ISSN: 1989-4015

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