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feediconRSS Vol.2, núm.2grisAR2010 grisARUniversidad Complutense de Madrid ISSN: 1989-4015grisAR

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Sodré sem Cais: António Franco Alexandre e a cidade sobre-exposta
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Pedro Serra

Universidad de Salamanca
Departamento de Filología Moderna
pedroserra@telefonica.net

Resumen
Ensayo sobre las relaciones de la poesía del poeta portugués António Franco Alexandre y la ciudad de Lisboa. Lisboa, metrópoli imperial, cancelada la memoria de su aura histórica, es refractada como "ville surexposée" o "ciudad sobre-expuesta", noción de Paul Virilio que alude a metástasis suburbana de las ciudades, lugar de pérdida de evidencia del propio objeto urbano.
Palabras clave: António Franco Alexandre, poesía portuguesa contemporánea, poesía y ciudad, Paul Virilio, "ville surexposée"/"ciudad sobre-expuesta".

Title: Sodré sem Cais: António Franco Alexandre and the overexposed city
Abstract
Essay on the relations of the poetry of Portuguese poet António Franco Alexandre and the city of Lisbon. Lisbon, imperial metropolis, in the remnants of a suspended memory of its historical aura, is refracted as a 'ville surexposée' or an 'over-exposed city', Paul Virilio's notion that elaborates on the metastasis of suburban cities, place where the urban object is no longer self-evident.
Keywords: António Franco Alexandre, contemporary portuguese poetry, poetry and the city, Paul Virilio, "ville surexposé"/"overexposed city".


Num livro de poemas de 1985 intitulado Visitação, do poeta António Franco Alexandre, o sujeito poemático como "visitador" é-o da língua literária que sustenta a visitação: por exemplo, do idiolecto estético camoniano, magister da língua conquanto "cisne canoro", e de cuja obra se pode chegar a dizer ser "intemporal, nascida do espírito, pelo espírito e para o espírito, a poesia de Camões, penhor imortal e testemunho indesmentível de portugalidade, continuará assim como manifestação estética consumada e como indestrutível força aglutinadora da língua portuguesa e da cultura lusíada, pelo mundo indelevelmente em pedaços repartidas" (Castro 1980: 3).

Em tempos, a Musa, quando era dada por uma cultura "nacional" gerada na dialéctica império/colónia, fala a língua do colono: digamos "bárbora escrava", subsumida ao mutismo da mise-en-poême monolingue, facto indexável, neste sentido, a uma língua companheira do império. Ora, lemos em Visitação, de António Franco Alexandre, versos dados na norma do português do Brasil, um exercício de assimilação da língua do Outro -uma outra língua-, nos antípodas daquela mise-en-poême monolingue. Veja-se o seguinte poema:

Português quando chega compra garrafa, / compra e vende garrafa, logo / abre um barzinho no Rio. / o Brasil é uma coisa genital. / só há aviador aqui. / conhece mundo, sabe avaliar / plantação de pimenta, / seu merecimento é grande. / japonês todo tem carro. / português quando chega, / já sabe de comércio e de navio. (Alexandre 1996: 136)

Não ocorre a alienação da língua do Outro, mas sim a procura de algo como a alienação à língua do Outro: "estrangeiro a esta terra paciente / a imito: formo as vogais, visto / a palavra 'colonial' sobre o pêlo molhado" (Alexandre 1996: 141-142). Na posteridade da história da Musa monolingue -figura, de resto, cujos atributos vários em António Franco Alexandre se metamorfoseiam: por exemplo "B." de "le tiers exclu", do livro de poemas Quatro Caprichos, que seria qualquer coisa como um "Muso", uma das derivas formais do momento subsequente à história que findou-, temos também uma cultura (poética) revista pelo avatar pós-colonial.

Nos idos da "bárbora escrava", a teoria amatória que insufla o dictum poético, negando a transformação que diz, reduzia a "coisa amada" à língua do "amador". Em Visitação¸ todavia, propõe-se uma teoria amatória des-dialectizada, não só pelo bilinguismo usado, como pela negação dos extremos que, no tempo da Musa monolingue, se negavam:

acontece este amor / sem amador, coisa amada. / tem grito de mulher no quarto ao lado / (é filme), tem canivete / encima da mesa branca, / tem lavadas crianças bebendo suco, / tem a rua, o jardim, / o hálito da água. // me basta quando vi / um breve engano. (Alexandre 1996: 141)

Para o poema de António Franco Alexandre o momento já não é aquele em que a literatura fazia a língua. A poetologia dum "cativo" de "cativa" -"cativas" a julgar pelos "pedaços" em que se reparte a língua-, e dum "amador" que assimila a si a "coisa amada" perdeu, em Visitação, "força aglutinadora". O amor que no poema se diz acontecer não passa por tal "virtude do muito imaginar". O amor que acontece consiste no descuido, diría que a partir do terceiro verso, do carácter de magistério do ideolecto estético por que irrompe o poema. O citado há muito que é apenas literatura tópica: "a irrupção da frase (a feita frase) é o maior / incómodo" (Alexandre 1996: 140).

O "incómodo" é o da regra da memória do sistema literário cujo retorno, sustentando a autonomia dele, é o peso pesado de toda a herança. Deflectir esta língua estetizada, enquanto tal ideológica, vai a par da assunção da poética que procurou escavar um brasílico diferencial desgarrado da ecolália camoniana. Para António Franco Alexandre, a memória do dictum poético é também já a legada pelo sistema literário brasileiro, e um poema como "Drummond/Helder" (cf. Alexandre 1996: 142) é disto exemplo.

A visitação, todavia, já não obedece à topologia "forte" que fundamenta a história das culturas nacionais. Os topoi poéticos não remetem para lugares originais. Daí o não serem "cómodos", isto é, não se "acomodarem". É deste desamparo global da Poesia fundamentada num genius loci que temos em António Franco Alexandre. Visitação propõe-nos esta des-aprendizagem, recordemos, magistralmente comentada por Óscar Lopes (cf. 1990). O belo meta-poema que abre o livro -cujo incipit é: "suponha que desprende desaprende" (Alexandre 1996: 123)- pode ser lido como cifra "teórica" do tempo: "The very concepts of homogeneous national cultures, the consensual or contiguous transmission of historical traditions, or 'organic' ethnic communities -as the grounds of cultural comparativism- are in a profound process of redefinition" (Bhabha 2000: 5). Visitar é procurar uma situação -e não um sítio- depois de sublimações tribais que tanto se podem dizer Teoria como Poesia.

Assim, um dos aspectos mais estimulantes da poesia de António Franco Alexandre, por tudo o já dito, é o facto de nela se encenar uma "poética da deriva" que tem por compasso uma urbanidade em perda de memória, melhor dita como complexa situação suburbana com pouca licença de nojo pelo objecto perdido. Este ensaio avança pelo lugar "forte" que a deambulação, a viagem, a cidade e o corpo (que as escreve e é por elas escrito) ocupam na poética de Alexandre, configurando um discurso onde se cruzam diferentes tópicas líricas e a cuja interpelação continua a ser necessário responder, ainda que esta necessidade se sustente em mínimos. Interpelação do conjunto de cruzados pois, como aqui se argumenta, o nomadismo alexandrino situa-se na posteridade de loci estáticos, de topoi poéticos auto-evidentes ou da Poesia como estase última de um dizer tribal purificado. A "poética da deriva" indistingue-se, assim, da deriva da poética. A versão solúvel do quiasmo empresta o título ao ensaio: deriva poética.

Sendo possível conceber que a Poesia -enquanto Escrita- e a Cidade atingem um cúmulo de desenraizamento na pós-urbanidade (cf. Cícero 2000), que há para além delas? A pós-urbanidade é um construto que pensa o cumprimento do programa urbanizador do Mundo agenciado pela Escrita e pela Cidade. Talvez nunca, como nesta pós-urbanidade, tenha sido tão exposto (cf. Virilio 1983) este "destino". Um destino que é, paradoxalmente, a contrafacção daquele programa. Com a efectuação imaginada de ambas, fecha-se a História -e a Cultura- como expulsão da Natureza. A pós-urbanidade, neste sentido, é o abeirar-se de uma natura desembaraçada da polarização negativa Natureza/História. Em Alexandre, a perda de evidência da arte (cf. Adorno 1990) é concomitante à perda de evidência da cidade (cf. Virilio 1997). A dialéctica cidade/campo, que um Cesário ainda sustenta (cf. Diogo 1996), do meu ponto de vista, já não governa a poesia alexandrina. A História como memória urbana, e de que o poema "O Sentimento de um Ocidental" ainda conserva o epitáfio, tão-pouco. Temos, agora, uma amnésia radical dita como o "Sodré sem Cais" de Oásis. Um Sodré com Cais é a Modernidade histórica. O sem-Cais é a pós-Modernidade ou a pós-História. É neste quadro de uma posteridade da História que penso que devemos ler o regresso ficcional do par Pã/Syrinx, mediador de uma nova Natureza que se diz como "sublime electrónico" (cf. Subirats 1997), e a que se resiste pelo regresso amoroso. Por outras palavras, a urbe, de que já não se pode conceber transcensão, é agora uma natureza e uma sociedade da ordem do "holograma" (cf. Baudrillard 1991): é, como lemos em Quatro Caprichos, um "grande telefone que cobre Lisboa".

Uma Lisboa dada por ícones -logo: significados culturais- como os "autocarros" ou os "eléctricos"; anotada pela toponímia -a "Calçada do Combro", a "rua Do Rosário"-; e figurada numa imagem tão vigorosa como é a de um "Sodré sem Cais". O conjunto devolve-nos, pelo menos, dois intertextos à vista. "The Love Song of J. Alfred Prufrock" de Eliot e, do cânone local, "O Sentimento de um Ocidental" ou "Num Bairro Moderno" de Cesário. Este último -é apenas um exemplo- em regime contrastivo: "Desço / por esse poço eléctrico, em construção no continente, / que agora me desvio. Não vejo nada. Seria / inesperado algum clarão rural, a fantasia de cedros hoje sírios" (Alexandre 1996: 371). Argumento contraste porque a cegueira para que estes versos remetem se opõe à cesariana "visão de artista" que, recorde-se, era justamente o parto de um cadinho rural, ainda que já traduzido para a cidade em "giga". Mais adiante, em jeito de conclusão, voltarei à comparação Cesário/Alexandre.

Para Eliot nos conduz o verso "falemos sim de Michelangelo" (Alexandre 1996: 376), que trai "In the room the women come and go / talking of Michelangelo" (1986: 71) e, ainda, a "viagem a dois pelas ruelas de Lisboa" (Alexandre 1996: 397) que poderá lembrar "Let us go, you and I, / When the evening is spread out against the sky / Like a patient etherised upon a table; / Let us go, through half-deserted streets" (1986: 70). No poema, todavia, o intertexto eliotiano não se resumirá a tão-pouco, a julgar por outros lugares como o "frémito dos ramos ao aproximar da chuva" (Alexandre 1996: 387), por onde se insinua "The Waste Land".

Numa imaginação dos lugares urbanos em que pontuam as "cidades devastadas" (Alexandre 1996: 9) -como lemos em Sem Palavras Nem Coisas- e em que falar "de lugares cidades países / não são viagens não são imagens para ter à sobremesa ou vestidas de cão" (Alexandre 1996: 262) -como se nos diz em Dos Jogos de Inverno-, numa negação da viagem como turismo, i.e., numa negação da sua domesticação (em sede burguesa, diría), gostaria de destacar que a experiência alienante da cidade -ainda que nem sempre o seja, pois é teatro do "amor"- na poesia de António Franco Alexandre é produto de uma subsunção da urbe pelo subúrbio.

Neste sentido, sublinho em Os Objectos Principais as visitações a "bairros periféricos, as suas moradias fluorescentes, e a sombra das gruas ser-nos-á fatal" (Alexandre 1996: 87); aí destaco, ainda, a propagação sanguínea do "cimento, translúcido, o mesmo que nos braços percorre as veias" (Alexandre 1996: 97); a que acrescento, como lemos em A Pequena Face, a dilatação auto-móvel desse mesmo espaço, dita como "o crescimento das avenidas, ao anoitecer, sob a nua vibração dos faróis" (Alexandre 1996: 219). Esta dilatação sob a lógica do crescimento espacial é assinalada, ainda, pelo "uiv(o)flexíve(l)" de "comboios com destino suburbano", que respigo das Primeiras Moradas (Alexandre 1996: 276).

A "pegajosa comoção urbana" (Alexandre 1996: 279), imagem ainda do livro que acabo de citar, traduz-se, pois, por suburbia de "ruas iguais a ruas diferentes", pela habitação numa "rua pequena, num subúrbio paralizado pelo destino", pela deslocação "de madrugada (n)o autocarro, o sono encruado das inúteis paragens suburbanas, pela janela aberta passam ruas, estradas calcinadas", estes últimos versos de Segundas Moradas (cf. Alexandre 1996: 316). Acentuo os atributos desta espacialidade suburbana: fatalidade, mesmidade, devastação, paralisia. Nas mesmas Segundas Moradas dois versos fazem-lhe a síntese como urzene: "noite após noite, os vastos entrepostos alcatroados permanecem vazios" (Alexandre 1996: 317).

A expansão urbana é, por outro lado, vista pelo prisma da versão doméstica do progresso. A fantasmagoria suburbana deixa-nos uma Lisboa "Sodré sem Cais" -radical desvinculação à (sua) História-, como se formula em Oásis. De modo explícito, ainda, lemos em Terceiras Moradas:

Somos um país pequeno, andamos / amarfanhados com a dimensão da boca, aonde não cabe /um peixe. Daí / a construção elíptica, parcialmente nos arredores, / vastas cidades fantasmas que só de noite se deslocam / entre pinhais e faróis. (Alexandre 1996: 361)

Estes termos da suburbanidade -e é este o ponto essencial do meu ensaio- reverberam um modelo de crescimento descontrolado, voraz, ao compasso de gasolina e asfalto, e que a arquitectura urbanista conhece como sprawl -as cidades crescem como manchas de óleo.

Na poesia de António Franco Alexandre temos a afecção de uma experiência da cidade em que esta cidade é uma ville surexposée: atópica, acrónica -de um "urbanismo sem urbanidade" (Virilio 1983: 22)-, amorfa e que projecta a imagem de um "mundo sem antípodas" (ibídem). Uma experiência que se pode expressar assim "condenados à /meditação do fax transcendente / dançamos, por entre lume e lixo, / numa nova viela de ruínas" (Alexandre 1999: 35). Lendo ainda o poeta em meu proveito, outra imagem desse mundo sem antípodas é a seguinte: "O paraíso / é assim: à semelhança do inferno, / mas em tudo diferentes" (Alexandre 1999: 49).

A sobreexposição da cidade, que é outro nome para a sua subsunção pelo subúrbio, diz-se ainda como des-funcionalização da cidade histórica. Uma generalização disto é aquela que temos nas seguintes palavras -que, na verdade penso poderem valer para o todo poético de António Franco Alexandre-, que ocorrem num contexto de reflexão sobre a cidade: "tudo entretanto /perderá o seu móvel perímetro" (Alexandre 1999: 87). A urbe por antonomásia (Lisboa) traduziu-se/traiu-se numa nova imaginação do lugar, que perdeu a densidade da memória: "Sodré sem cais". A um Portugal da História como "País das Naus" (cf. Alexandre 1999: 72) sobrevém um Portugal pós-histórico, pós-imperial, como "Sodré sem cais".

À imaginação um Portugal urbano sucede a imaginação de um Portugal pós-urbano, isto é, um Portugal re-topologizado não em função de um centro de mementa mas em função de uma marginalidade suburbana anamnésica. E porque, como lemos em "L'Oubli", o sujeito poemático se dedica a "Distinguir / Gemeinschaft, Gesellschaft" é de supor que o que se nos conclui é a subrogação da primeira pela segunda. Os Monumentos, mementa na cultura da Modernidade, cedem agora à "monumentale attente de prestations de service devant les appareils, machines de communication ou de télécomunication" (Virilio 1983: 21). Assim a "precessão / dos telefones" (Alexandre 1999: 73), o "fax transcendente", o "túnel de benfica" ou o "telefone que cobre Lisboa" (Alexandre 1999: 35), que leio como peças de mobiliário pós-urbano. Estas figuras convocam colossos da arquitectura suburbana a que devemos acrescentar o C. C. Colombo, desejado em "Syrinx: ficção pastoral". Concluirei este ensaio regressando à figura do "colosso" em António Franco Alexandre.

Nesta pós-urbanidade não deixam de ir sendo anotadas "hipóteses" de Arcádia. Um lugar onde se diz algo como uma utopia pastoral, por exemplo, é o poema 19 de "corto viaggio sentimentale, capriccio italiano". Cito-o integralmente: "como será diferente / amanhã, toda a esfera do mundo! / o sol mesmo poderá / vir nascer a ocidente; / as árvores darão pássaros por fruto, /falantes animais dirão verdade; / à tua beira saberei dizer-te / de antigos versos a arte derradeira" (Alexandre 1999: 39). Rebobina-se o mundo, isto é, des-ocidentaliza-se o seu destino. É, esse, um fora de tempo e de lugar, ou melhor, é a inversão do logos que os sustenta: o sol nasce a ocidente.

Num dos caprichos de Quatro Caprichos, que é "ficção pastoral", por seu turno, vão confrontar-se duas outras variações bucólicas. Na série negra propõe-se:

Anda, vou-te mostrar a terra / dos teus pais, avós, antepassados / tão antigos que os podes escolher. / este aqui é noé, de barba por fazer; / meteu na arca puro e impuro, bem e mal, / inventou o vinho, homem melhor / da sua geração (não é grande elogio), / teve filhos, netos, é de crer que morreu. / Estoutro, não sei bem, era pirata na malásia. / vês as colinas? São tuas, quando / olhas a direito. Realmente tuas, / parte de um mundo teu. (Alexandre 1999: 76)

Por seu turno, no poema XIV da série azul -ao que penso correspondendo a enunciado nínfico-, lemos: "Preferia ir ao colombo, comprar roupas, ver as montras, / enrolar-me no cheiro dos corpos que se trocam / na esquina municipal, esquecer-me por dentro / da carne e do modo como se transforma / em luz. Ou talvez andar de moto / na perigosa margem litoral" (Alexandre 1999: 77). Noé e Colombo são nomes para diferentes utopias.

Entretanto, o poema XIII concluirá derrogando a utópica Gemeinschft em "filosofias": "Sim, isto são filosofias / tens razão. (E tem graça ao ter razão)" (Alexandre 1999: 76). Não anda longe daqui, segundo creio, Pessoa-Caeiro. Na verdade, o poema parece-me acabar por concluir é o carácter poético daquela arcádia: "Anda daí, vou mostrar-te o colete de forças / onde era costume, sabes, tratar casos assim" (ibidem). Loucura poética? Como quer que seja, ela é apenas "mostrada" como objecto museológico.

Por seu turno, preferir o Centro Comercial Colombo a Noé, no poema XIV, não é propriamente a comutação de um espaço-tempo utópico por outro distópico. É, antes, uma troca de u-topias. O Colombo também corporiza uma utopia urbana, a de uma cidade optimizada de aparente comunhão social e natural. Magnetizado como centro funcional de uma metrópole hipercongestionada, o Colombo descobre-nos, em escala micro-física, a melhor das Américas. É o Ur-topos daquele "Sodré sem Cais". Discursiviza um mais além da cidade que a não transcende: o sujeito não pode senão "falar" a "cidade" (Barthes 1987: 184). É uma utopia em/de "tempos pós-utópicos" (cf. Gomes 1994).

A cidade pós-urbana, a cidade subsumida pelo subúrbio, a cidade pós-histórica, é uma cidade-holograma. É dela/por ela que Syrinx retira a "sensação de pouco nítido holograma". É o abatamiento ao zero do desejo ou, como formula Baudrillard, "imagem perfeita e fim do imaginário" (Baudrillard 1991: 135).

Ora bem. A improbabilidade de um "clarão rural" que se nos diz em Oásis mostra-nos a distância histórica entre Cesário e Alexandre. Fundamentalmente, o que temos é, precisamente, uma re-definição do que seja o "suburbano". Leia-se:

Em Cristalizações, segundo uma especial proximidade portuguesa do campo e da cidade -que se nota em Cesário, na "exactidão" das referências-, o poeta põe em jogo não propriamente o urbano, mas o subúrbio, i.e., a fronteira espacial onde o rural e o urbano se combatem. Tipicamente, a cidade aparece, assim, como o que se constitui contra e a partir do campo. (Diogo 1996: 39)

O subúrbio alexandrino, pelo contrário, joga-se com coordenadas muito diferentes. Creio que uma sucinta descrição delas pode ser a seguinte:

Si la métropole possède encore un emplacement, une position geographique, celle-ci ne se confond plus avec l'ancienne rupture ville/campagne, ni d' ailleurs avec l'opposition centre/périphérie. La localisation et l'axialité du dispositif urbain ont perdu depuis longtemps déjà leur évidence. Non seulement la banlieue a opéré la dissolution que l'onsait, mais l'opposition 'intra-muros', 'extra-muros', s'est dissipée avec la révolution des transports et le développement des moyens de communication et de télécommunication, d'où cette nébuleuse conurbation des franges urbaines. (Virilio 1983: 20)

O subúrbio alexandrino é da ordem não do limes cidade/campo mas do interface que cancela o limes. O Centro Comercial Colombo é um oásis urbano/suburbano que encena justamente a transcensão da cidade histórica, remetida à condição de loco citato pelo "sublime electrónico". O Colombo alexandrino é uma mega-giga cesariana.


Bibliografía
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