O tema de Inês de Castro
no Romanceiro Tradicional Peninsular

Natália Albino Pires
Escola Superior de Educação
Instituto Politécnico de Coimbra


 

   
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1 - INTRODUÇÃO

El romancero se nos oferece como um fenómeno literario insólito, lleno de contradicciones; una poesía oral, campesina y anónima, capaz de servir, a la vez, de vehículo expresivo a Lope, a Góngora, a Machado, a García Lorca; una poesía aprendida y recitada de memoria (...) que se caracteriza por un alto grado de creatividad artística; una poesía, al parecer primitiva y sencilla, que resulta ser de una densidad semántica notablemente sugestiva y compleja; una poesía tradicional y arcaizante, de raíces medievales, capaz de renovarse incesantemente, al adecuarse a los nuevos sistemas de valores de incontables generaciones consecutivas; una poesía eminentemente “poética”, en la que (...) nos falla el mismo concepto de “texto”, al tratar de captar el esquivo proceso de su constante y dinámico devenir.

Samuel Armistead.

 

Após a leitura de Inês de Castro - Um Tema Português na Europa, de Maria Leonor Machado de Sousa, parece ter-se esgotado o Tema de Inês de Castro, uma vez que a autora nos apresenta uma panorâmica bastante completa de tudo quanto se escreveu sobre o Tema não só a nível nacional, como também a nível mundial, no que respeita à historiografia e à (re)criação literária.

Se o Tema lendário do Amor e Morte de D. Inês de Castro tem despertado o interesse, aquém e além fronteiras, de investigadores e de escritores, não menos o Romanceiro Tradicional Pan-hispânico tem apaixonado, desde o século XIX, com o advento do Romantismo, estudiosos de todo o mundo, uma vez que, com as investigações desenvolvidas pelos românticos, se descobriu que este género literário tinha, e tem, as suas origens na Idade Média, nos primórdios da Literatura peninsular, e que havia chegado à contemporaneidade por via popular, sendo transmitido oralmente de geração em geração.

Ainda que hoje, na viragem do século XX para o XXI, o Tema de Inês de Castro seja mais estudado ao nível da recriação literária, por servir de musa inspiradora a poetas, dramaturgos e prosadores em todo o mundo, não podemos descurar o facto de ser inegável que, muito antes de se transmitirem conhecimentos às gerações vindouras através da escrita, este legado se faz através da oralidade, pelo que se deduz que, antes do primeiro texto literário grafado dedicado ao Tema histórico, tenha nascido, pelo menos, um Romance que cantou o lastimoso episódio da História de Portugal e o levou a toda a Ibéria.

A escolha do Tema do presente trabalho deve-se não só ao facto de o Romanceiro ser um veículo de transmissão de valores e informação bastante fidedigno pelas suas características específicas, como também ao facto de o género Romance ser um dos mais antigos géneros literários ainda vivos na Cultura Pan-hispânica e que, como fonte de informação, nos permite aceder a informações nunca registadas em documentos oficiais. Por outro lado, a escolha deve-se, ainda, ao facto do Tema Lendário de Inês de Castro ser um dos mais importantes da Cultura Portuguesa, a par do Mito Sebastianista, e ao facto de a protagonista da desditosa história amorosa ser de ascendência galega.

No presente trabalho procurar-se-á, primeiramente, saber se existem Romances dedicados ao episódio da História de Portugal. Depois, no caso de os haver, se todos os que aludem ao Tema do Amor e Morte de D. Inês de Castro podem classificar-se como Romances Velhos, ou seja, tradicionais e, posteriormente, tentar-se-á averiguar se o Tema subsiste, ainda, na Tradição Oral Moderna, sobretudo na Peninsular.

No entanto, porque os textos de base ao trabalho serão bastantes, em anexo apresentam-se apenas os textos que foram considerados tradicionais, ou seja, quer os Romances Velhos, quer os Romances da Tradição Oral Moderna que tratam o Tema, sendo indicados os incipit dos restantes textos em notas de rodapé com a respectiva nota bibliográfica.

 

2 - O TEMA DE INÊS DE CASTRO NO ROMANCEIRO PENINSULAR

No início do século XX, em 1906, Menéndez Pelayo publica quatro romances dedicados a D. Inês de Castro:

Yo me estando en Tordesillas por mi placer y holgar

Yo me estando en Giromena a mi placer y holgar;

El rey don Juan Manuel que era de Cepta e Tanjar e

En Ceuta estaba el buen rey, ese rey de Portugal,

devendo-se, contudo, a Milà i Fontanals a primeira notícia da sobrevivência, na tradição oral catalã, de textos referentes ao tema.2

Também no início do século XX, Teófilo Braga publica, no seu Romanceiro Geral Portuguez em três volumes, oito romances, dos quais apenas três haviam sido publicados por Menéndez Pelayo:

Dos ricos paços de Coimbra / Nobre Infante se partia;

El valeroso Don Pedro, / Gran príncipe Lusitano;

Contendo com Doña Inez / Está Don Pedro en Coimbra;

Don Pedro, á quien los crueles / Llaman sin razon Cruel;

Á la reina de los cielos / Que con excelencias tantas;

Yo me estando en Tordesillas / Por mi placer y holgar;

Yo me estando en Giromena / Por mi placer y holgare e

En Ceuta estaba el buen Rey, / Ese Rey de Portugal.3

No que diz respeito ao texto Dona Inez de Castro (Dos Ricos paços de Coimbra / Nobre Infante se partia) muito embora surja no capítulo dedicado ao “Cyclo portuguez tradicional e semi-litterario de Romances Historicos e Lendarios” com a nota de que se encontra documentado numa Lição manuscrita do séc.XVIII e apesar de aparecer publicado também por Cortes-Rodrigues4, chegou-se à conclusão, após vários estudos acerca de fontes impressas do Romanceiro, que, pelo facto de nunca ter sido encontrado o manuscrito, de que só poderá tratar-se de uma composição literária elaborada no século XIX por um poeta desconhecido e não de uma versão culta do séc. XVIII, como afirma Teófilo, e muito menos de um Romance da Tradição Oral, como pode parecer à primeira vista.

Em relação aos outros sete romances apresentados por este autor, verifica-se que apenas três deles (Yo me estando en Tordesillas / Por mi placer y holgar; Yo me estando en Giromena / Por mi placer y holgare e En Ceuta estaba el buen Rey, / Ese Rey de Portugal) já haviam sido publicados por Menéndez Pelayo aquando da publicação do Romanceiro Geral Portuguez e foram publicados, também, nos últimos dez anos como fruto de um árduo trabalho de investigação em fontes impressas anteriores ao século XIX sobre Romances Velhos com Temas históricos, quer em Espanha, quer em Portugal.

Os textos El valeroso Don Pedro, / Gran príncipe Lusitano e Contendo com Doña Inez / Está Don Pedro en Coimbra surgem documentados no Romanceiro de Gabriel Lobo Lasso de la Vega em 1587 e, dado o seu carácter erudito, são, portanto, textos do Romanceiro Novo e não da Tradição Oral.

Por sua vez, a respeito dos romances Don Pedro, á quien los crueles / Llaman sin razon Cruel e Á la reina de los cielos / Que con excelencias tantas, ainda que Teófilo Braga os classifique como “anonymos”, induzindo o leitor a pensar que se tratam de textos da tradição oral, parece ser necessária uma maior atenção dos estudiosos sobre eles visto que até ao momento não foram documentados nem em fontes impressas anteriores ao séc. XIX, nem nos trabalhos de recolha da Tradição Oral que têm vindo a ser efectuados durante este século, pelo que se deduz que também são fruto da recriação romântica.

Deste modo, dos oito textos documentados por Teófilo Braga apenas três são Romances Velhos que abordam o triste episódio da História de Portugal.

Ainda no início deste século, Carolina Michaëlis, depois de reflectir sobre os textos referentes a D. Inês de Castro dados à estampa por Menéndez Pelayo e por Teófilo Braga, chama à atenção para uma Grosa existente na Farsa dos Almocreves de Gil Vicente, cujo incipit talvez correspondesse a um romance dedicado aos amantes Pedro e Inês que ela cria irremediavelmente perdido. No entanto, no seu labor reflexivo, a autora refere já o incipit do romance, que pensava estar desaparecido, sobre a desventura de D. Inês, embora lhe pareça, pela rima, que não poderá estar na base do texto vicentino.5

Em finais do século XX, Di Stefano publica dois romances cujo incipit se assemelha à Grosa da Farsa dos Almocreves e dos quais um fora referido pela estudiosa portuguesa: Yo m’estando en Coimbra a prazer y a bel folgar e Yo m’estava allá en Coimbra que yo me la ove ganado6. O alerta de Carolina Michaëlis para a existência de um Romance, que cria perdido, de suporte à Grosa confirmar-se-ia com a edição dos Romances.

Um ano depois, Paloma Díaz-Mas7 publica o Romance Yo m’estando en Coimbra a prazer y a bel folgar, contudo com algumas variantes que se devem a uma actualização de grafia.

Francisco López Estrada, no seu artigo de homenagem a Álvaro Galmés de Fuentes8 fala-nos de dois textos dedicados ao trágico episódio da História de Portugal presentes no Cancioneiro de Antequera: Doña Constanza salió de España para Coimbra e Doña Constanza murió y Portugal que sabía, ainda que o segundo pareça ser uma versão truncada do primeiro, em palavras do autor. No entanto, o próprio autor salienta que “los romances conservados, sin embargo, no corresponden a la modalidad de los viejos, sino que son nuevos, de carácter artístico, como ocurre con los de Gabriel Lobo Lasso de la Vega”9, ou seja, os dois textos atrás comentados e que surgem publicados por Teófilo Braga.

Em 1989, Mercedes Díaz Roig, em El Romancero Viejo10, publica um dos Romances didicados a D. Inês de Castro (El rey don Juan Manuel que era en Ceuta y Tanjar) que já havia sido publicado quer por Menéndez Pelayo, quer por Teófilo Braga no início do século.

Tudo quanto fica dito até aqui refere-se exclusivamente a textos documentados em fontes impressas anteriores ao séc. XIX. Assim, tendo em conta os estudos que têm vindo a ser desenvolvidos pelos investigadores desde o início do século, verifica-se que os Romances:

a)

Contendo com Doña Inez / Está Don Pedro en Coimbra;

Don Pedro, á quien los crueles / Llaman sin razon Cruel;

Doña Constanza salió de España para Coimbra e

Doña Constanza murió y Portugal que sabía

são composições eruditas elaboradas durante o século XVI na sequência da descoberta do valor comercial do género e pertencem, por isso, ao Romanceiro Novo de origem culta.

b)

Dos ricos paços de Coimbra / Nobre Infante se partia;

El valeroso Don Pedro, / Gran príncipe Lusitano e

Á la reina de los cielos / Que con excelencias tantas

por um lado, por não surgirem atestados em documentos impressos anteriores ao século XIX e, por outro, por também não terem sido documentados aquando dos trabalhos de campo que têm vindo a ser efectuados no seio das comunidades pan-hispâncias para a recolha do acervo oral e tradicional moderno, não podem considerar-se textos tradicionais. Seguramente, são Romances que terão sido criados por poetas românticos com base no modelo romancístico tradicional, não podendo, por isso, figurar como parte do legado tradicional dedicado ao episódio da História de Portugal.

c)

Yo me estando en Tordesillas por mi placer y holgar;

Yo me estando en Giromena a mi placer y holgar ou Yo m’estando en Coimbra a prazer y a bel folgar;

El rey don Juan Manuel que era de Cepta e Tanjar e

En Ceuta estaba el buen rey, ese rey de Portugal

são os únicos Romances Velhos, documentados até ao momento, que tratam do Tema do Amor e Morte de D. Inês de Castro.

Da análise dos textos conclui-se que cada um deles retrata/canta um momento particular da trágica vivência amorosa do casal, havendo, porém, alguns factos dessa atribulada vida que se mantêm em mais do que um romance, nomeadamente a sua morte encomendada às mãos de cavaleiros, a existência de filhos fruto de um amor adúltero, a súplica de mercê tendo em conta os inocentes filhos, a ausência do infante no momento do assassinato, a sua vingança e o casamento com a amada depois de morta.

Assim:

1) o texto Yo me estando en Tordesillas por mi placer y holgar11 alude exclusivamente à chegada de D. Inês a Portugal (Fuérame para Coimbra, Coimbra de Portugal12) e à sua ida para o convento (Fuérame a un monesterio que estava en el arrabal13);

2) Yo me estando en Giromena a mi placer y holgar e Yo m’estando en Coimbra a prazer y a bel folgar dão uma maior incidência à dramaticidade do momento em que os carrascos lhe anunciam a morte e ao momento da execução (Tiéndela en un repostero para avella de degollare / Assí murió esta señora sin merescer ningún mal14);

3) o texto En Ceuta estava el buen rey ese rey de Portugal faz maior referência à vingança de D. Pedro I (Mandó degolar la Reina / Don Rodrigo cautear / Y a ese Duque de Salinas, / Y el marquez de Villareal, / Y al buen Obispo de Oporto / Le mandó descabezar15) e ao casamento com a amada depois de morta (Hizo sacar a su amiga / Para con ella casar16);

4) e em El rey don Juan Manuel que era en Ceuta y Tanjar é dada maior importância não só à vingança do amado ( fuese donde la reina, triste y con pesar / y dende a muy pocos días la reina caído ha mal / [...] / muerto se había la reina de encubierta enfermedad/ Después que fue enterrada el rey a Viseo va, / prender hizo a don Rodrigo17), como também à coroação de Inês de Castro e ao casamento depois de morta (Vase a la sepultura do doña Isabel está / hecho la había sacar de ella y luego desenterrar. / Encima de un rico estrado allí la mandó sentar, / púsole daga em mano [...] / Luego se casó con ella asi muerta como está18).

É de salientar, ainda, que nestes Romances Velhos se verifica já um processo de tradicionalização/actualização, que viria a manter-se até ao presente, com a indicação de que a rainha foi a mandatária do crime (Dijéronle que la reina la ha mandado degollar19), sabendo-se que na realidade histórica foi o Rei de Portugal, D. Afonso IV.

Desde as primeiras décadas do século XX que, a par do estudo e da investigação em fontes impressas, se procura, através de um árduo trabalho de campo, registar o espólio do Romanceiro Tradicional, quer peninsular, quer pan-hispânico, visto que o Romanceiro não é ainda uma realidade de ontem e continuam a existir textos na Tradição Oral Moderna, que confirmam ou infirmam, muitas vezes, a tradição escrita.

Neste sentido, têm sido publicados vários trabalhos que dão conta do espólio recolhido na Península Ibérica, sendo de destacar o esforço empreendido, em Espanha, pelos discípulos de Ramón Menéndez Pidal e, em Portugal, pelos discípulos de José Leite de Vasconcelos e Luís Filipe Lindley Cintra.

Na Tradição Oral Moderna actual é ainda possível encontrar romances que cantam o lastimoso episódio da que depois de morta foi rainha como confirmam, sobretudo, os trabalhos de campo efectuados por Ana Valenciano na Galiza e Salvador Palomar e Salvador Rebés na Catalunha.

Em 1959, Carré Alvarellos publica um Romance em galego dedicado a D. Inês que, segundo ele, foi fornecido por Xosé Martínez Andrey, na Galiza20 e ao qual há que prestar uma maior atenção tendo em conta o processo de transmissão e tradicionalização do género, bem como os romances recentemente publicados.

No que concerne ao processo de transmissão e tradicionalização, Mercedes Díaz Roig diz-nos que "el romance está sometido a las dos fuerzas que rigen la poesía popular: la conservación y la renovación. Las distintas versiones de un poema son el resultado del trabajo de la tradición regido por ambas fuerzas. La conservación permite que un texto perdure en la memoria colectiva durante años (y aun siglos), pasando de boca en boca fundamentalmente el mismo, incluso con versos que se repiten textualmente de generación en generación. Hay un impulso en el ser humano a repetir lo heredado tal y como lo aprendió y cada cual defiende su texto como un patrimonio precioso. Al mismo tiempo, existe también un deseo (consciente o no) de renovar y mejorar lo que se posee, y esto da lugar a las variaciones que van remoldeando los textos y cambiándolos poco o mucho"21, "el romance cambia y permanece, varía y queda el mismo, porque la historia rara vez se pierde; puede acortarse o alargarse y también, aunque no es frecuente, convertirse en un romance diferente"22. Por seu lado, Braulio do Nascimento conclui, no estudo comparativo efectuado com base nas variantes do romance “Veneno de Moriana” no Brasil, que os processos de variação a que o romanceiro está sujeito, embora se manifestem de diversas formas, dependem integralmente da participação psicológica do emissor “portador de folclore”: “é de grande relevância a participação emotiva do portador de folclore no processo de variação do romance. Esta participação se manifesta através de alterações caracterizadas por supressão ou substituição de segmentos ou versos ou acréscimos a seu gôsto para embelezamento ou ampliação do romance sempre condicionada por factôres de ordem geográfica, social e cultural. Cada variante representa fundamentalmente um momento psicológico na história do romance, a forma com que êste se fixou na memória do portador de folclore, depois de lhe ferir a sensibilidade, justificando-se perfeitamente o aforismo ‘Nihil est in intellectu quod no prius fuerit in sensu’. E o romance com sua estrutura temática e verbal permanentemente condicionada pela oralidade é, em cada variante, o que foi retido pela memória, o que impressionou a alma popular”23. De forma mais sintética, Mariano de la Campa Gutiérrez lembra que “si los romances pierden la funcionalidad de sus mensajes, dejan de servir al grupo humano en el que sobreviven y se convierten en restos arqueológicos sin sentido (sin mensaje) y, o bien pasan a fosilizarse en cantos ritualizados (infantiles, oraciones, mayas, endechas) o bien acaban desapareciendo para siempre. Los rasgos que caracterizan al género en su propia esencia son, por un lado, la noción de apertura (‘vive en variantes’) y, por otro, su carácter conservador”24. Justificando-se, deste modo, que um mesmo romance possa ser recitado na tradição portuguesa em português, na catalã em catalão, na galega em galego e na castelhana em castelhano.

No que respeita à recolha de textos da tradição galega, em 1998 publica-se o trabalho de campo realizado pelo galego Víctor Said Armesto entre os anos 1900 e 191025, onde surgem cinco versões de um romance dedicado a D. Inês de Castro: Siendo yo niña, chiquitita, chiquitita y por criar; Caralinda, caralinda, cara de un lindo cristal; Soledad de la Calzada, hoy día, triste de mí; Caralinda, Caralinda, cara de un bello cristal e Por las orillas del río caballeros vi pasar26.

Ana Valenciano, após o trabalho de campo efectuado na Galiza durante a década de oitenta, (re)publica27 três versões deste mesmo romance: Soledad de la Calzada, soledad triste, ay de mí; Estando la doña Antonia encima de su pinar e Siendo yo muy chiquitita, chiquitita sin criar28.

Constata-se que existe uma grande semelhança entre o incipit do texto publicado por Carré Alvarellos (Cando eu era pequena, / pequena, por me criar) e o incipit de um dos romances recolhidos por Armesto (Siendo yo niña, chiquitita, chiquitita y por criar) bem como entre um dos romances exemplificativos da tradição galega publicado por Ana Valenciano (Siendo yo muy chiquitita, chiquitita sin criar), porém, ainda que nas versões do início de século e nas dos anos oitenta se verifique algum vocabulário em galego, a versão de Carré Alvarellos é a única que surge exclusivamente em galego.

Assim, muito embora o complexo processo de tradicionalização possibilite a existência de um romance em galego, as publicações de textos referentes à tradição do noroeste peninsular onde se incluem romances dedicados aos amores do príncipe português, invalidam a veracidade do romance publicado por Carré Alvarellos. Primeiro, porque no caso de nos anos sessenta ter circulado uma versão exclusivamente galega ela teria de ter-se mantido uma vez que o seu desaparecimento contradiz o processo de transmissão e “tradução”, ou seja, de actualização dos textos a cada uma das línguas das tradições pan-hispânicas, como por exemplo a portuguesa onde, depois de actualizados linguisticamente, se mantém a recitação em português. Segundo, porque, da comparação do processo de actualização e transmissão dentro das comunidades pan-hispânicas, se verifica que as tradições galega e sefardita são as mais arcaicas não só no que respeita à manutenção de temáticas históricas, como também no processo de actualização da língua que acarreta consigo o facto de a tradição sefardita continuar a recitar versões integralmente em castelhano e de na tradição galega serem raros os temas e as composições que surgem totalmente em galego sem qualquer interferência do castelhano.29

Salvador Palomar e Salvador Rebés, nas suas recolhas efectuadas entre 1988 e 1989 na comarca de Ribera d’Ebre, encontraram duas versões do romance: Estem manats de la reina, que la tenim de matar e Venim de part de la reina que la venimos a matar30.

Seria de esperar que a Tradição Oral Moderna Portuguesa conservasse, pelo menos, um romance dedicado ao Tema do Amor e Morte de D. Inês de Castro por haver sido um dramático episódio da História de Portugal. Contudo, após as várias recolhas efectuadas, durante os anos oitenta, pelo grupo de trabalho do Instituto do Romanceiro da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova da Lisboa no território português, incluindo os arquipélagos dos Açores e Madeira, e tendo em conta os trabalhos de recolha efectuados por Leite de Vasconcelos e Manuel da Costa Fontes, constata-se que em Portugal já não existe um único romance dedicado ao trágico episódio uma vez que até hoje não foi recolhido nenhum romance com referências ao Tema, nem sequer no distrito de Bragança, o mais arcaico da tradição portuguesa.

Curioso é, contudo, o facto de, aquando das suas incursões pelo Canadá a fim de recolher romances no seio da Comunidade Portuguesa aí residente, Manuel Costa Fontes ter encontrado uma informante que assegurava, ao recitar versões do Romance Rico Franco, que a D. Inês e o D. Pedro do Romance correspondem, respectivamente, a D. Inês de Castro e a D. Pedro I31.

Tem-se constatado que nas demais tradições pan-hispânicas da Península Ibérica ou fora dela, ou seja, a andaluza e a castelhana, a sefardita, a tradição da América Latina e, ainda, a das comunidades de emigrantes residentes na América do Norte, isto é, Estados Unidos e Canadá, já não se canta nenhum romance que aluda à desventura amorosa entre o príncipe português e a sua amante32.

Após a leitura atenta de todos os textos romancísticos da Tradição Oral Moderna dedicados ao trágico amor da História portuguesa, verifica-se que, entre os Romances Velhos e os Romances da Tradição Oral Moderna, há diferenças significativas, principalmente no tratamento/desenvolvimento do Tema.

Nos Romances Velhos existe uma clara diferenciação dos momentos da vida do casal amoroso, sendo dedicado, como acima foi referido, um Romance a cada episódio dessa vida, o que nos prova a importância e repercussão cultural que este acontecimento teve em toda a Península Ibérica. Talvez, por se nutrir um sentimento de piedade/pena pela vítima feminina, tenha havido necessidade de reiterar não só o seu sofrimento, mas também o do seu amante, através da criação de Romances que cantassem, em separado, os momentos mais trágicos de uma vida.

Da análise dos Romances da Tradição Oral Moderna, chega-se à conclusão que os dados e factos mais importantes da vida do casal são mantidos em todos os Romances conhecidos, nomeadamente:

1) o facto de esta carnificina haver sido encomendada (Estem manats de la reina, que la tenim de matar ou - De la hermosa Carolina que la reina mandó matar33);

2) um número de verdugos que processa o assassinato da amante do Infante (l’han muerto dos romeritos que l’han vingut a buscar ou Por aquel monte arriba tres caballeros van34);

3) a existência de filhos do casal (- Vostè del rei tiene hijos, la reina no tiene cap ou Esto que oyeron sus hijos empezaron a llorar35);

4) a ausência do amante no momento da carnificina (Ya llega don Conde a casa y encuentra los hijos llorar ou Al otro día era jueves, venía el rey de cazar36);

5) e, ainda, a vingança de D. Pedro pela morte da sua amada (- Id a encender uma pipa para la reina empipar; / id a derramar um monte para la reina quemar. ou - Moriran los sentiles, perquè els han deixat passar, / i los cuatro caballeros que la llevan a enterrar; / també morirá lo cura perquè l’ha feta enterrar; / moriran los escolans que l’han vingut a buscar; / moriran los sepulteros que l’han puesto a sepultar; / també moriran les campanes perquè les han fet repicar. / També morirà la reina, que l’ha fet vindre a matar37).

Todavia, entre as duas tradições peninsulares é possível encontrar algumas diferenças significativas em relação ao tratamento do tema, ainda que em ambas as tradições se indique o número de verdugos que assassina a personagem feminina, três nas versões da tradição galega e dois na tradição catalã, e se refira o facto de o “esposo” estar ausente no momento do assassinato.

Deste modo, na tradição catalã, os assassinos ao chegarem junto da mulher anunciam-lhe que estão mandatados pela rainha para a matar (Estem manats de la reina, que la tenim de matar38) ao passo que na tradição galega a personagem feminina infere imediatamente ao ver os homens que estes vêm para matá-la (Por aquel monte arriba tres caballeros van / uno es el verdugo que me viene a matar39).

Nos textos catalães, a vítima ao saber da sua morte, despede-se do lugar onde vive (Antes no me matéis, mi palacio vull rondar/ adiós, sillas de plata, ja no guaitaré más40) enquanto nos galegos encomenda os filhos em testamento (al mundo os dejo ir a quien os queira criar41).

Nas versões catalães, são os filhos que comunicam ao pai a morte da sua esposa (Mi madre ja n’és morta, més d’hora i media hi fa42) ao contrário das versões galegas em que o rei percebe pela agitação da rua que haverá um enterro e ao perguntar quem é o defunto recebe a notícia da morte da sua amada (- ¿De quién es aquel entierro de tanta gente a llorar? / - De la hermosa Carolina que la reina mandó matar43).

Nos Romances da Tradição Oral Moderna deixou de ser cantado o momento da chegada da aia de D. Constança a Portugal e a sua entrada para o Convento de Santa Clara e, também, o episódio da sua coroação depois de morta, talvez porque o momento da sua chegada tenha deixado de ser pertinente perante os trágicos acontecimentos que viriam a ter lugar e a sua coroação se tenha tornado sórdida de mais e, por isso, perdeu, para as comunidades tradicionais, a sua tragicidade.

Por último, diferença significativa entre os Romances da Tradição Oral Moderna e os Romances Velhos é também a quantidade de Romances existentes dedicados ao Tema. Enquanto a tradição antiga mantinha quatro romances dedicados aos amores adúlteros, a Tradição Oral Moderna fundiu os Romances Velhos, figurando, hoje, apenas um Romance que, nas suas variantes, nos narra os trágicos momentos da vida dos amantes.

EPÍLOGO

- Cruel vento, cruel vento, derrubador maioral!
Derrubaste três igrejas das melhores de Portugal.

- Tu que tens, ó D. Fernando, que andas tão triste na guerra?
Ou te lembra pai ou mãe ou gente da tua terra?

Como se pôde verificar, além dos Romances Velhos dedicados ao episódio da História de Portugal, apenas a tradição Oral Moderna Peninsular, nomeadamente a galega e a catalã, conserva ainda Romances que o cantam.

Porém, muito fica por dizer em relação aos Romances inesianos. Por exemplo, um estudo comparativo dos mesmos dar-nos-ia informações pertinentes não só acerca de pormenores históricos que foram valorizados e desvalorizados com o passar dos séculos no processo de tradicionalização, mas também acerca do modo como este amor tem vindo a ser interpretado, no decorrer do tempo, pelas comunidades tradicionais.

No entanto, o Romanceiro Tradicional Pan-hispânico ainda carece de estudos, mas, sobretudo, de trabalho de campo que torne possível o registo e, acima de tudo, a fixação do espólio, ainda existente, e que resta de uma cultura secular. Em Portugal, faltam os meios económicos sem os quais qualquer trabalho de campo não pode prosseguir e, por outro lado, ainda hoje as palavras de Jorge de Sena são extremamente actuais, pois, “em Portugal, manifestar interesse pelo Romanceiro é ser ainda suspeito de ‘iberismo’, dado que a confusão de interpenetração e adaptação (inerentes à própria existência de um Romanceiro) com submissão estético-cultural [...] ainda subsiste - e há portugueses que tremem de verificar-se ou supor-se, na tradição oral, um breve capítulo da imensa glória do Romanceiro hispânico, quando partem do postulado de as literaturas terem uma pura e orignal raíz nacional-popular”44.

Por seu turno, os mass-media são os meios informativos por excelência do século XX, superando e suplantando todo e qualquer veículo informativo em qualquer parte do mundo. Deste modo, e com o acelerado processo de desenvolvimento da Internet, que se tornará, sem dúvida alguma, o meio informativo por excelência do terceiro milénio, o Romanceiro perdeu a sua hegemonia no seio das comunidades, tendo sido relegado para os velhos e, tal como em África quando morre um velho, morre uma biblioteca, também para as comunidades pan-hispânicas, sempre que morre um velho, desaparece uma parte da história da sua cultura, que nunca teve oportunidade de ser, na maioria dos casos, registada/fixada criteriosamente para que as gerações futuras possam (re)conhecer no presente o seu passado.

Assim sendo, é provável que, dentro de duas ou três décadas, o Romanceiro venha a morrer no seio da comunidade peninsular e, quando isso acontecer, perder-se-á o único Romance Tradicional ainda vivo que canta os (des)amores de D. Inês de Castro e D. Pedro I.

 

Notas:

[1] MENÉNDEZ PELAYO, Marcelino, Tratado de los romances viejos, in Antología de poetas líricos castellanos, Vol. XII e XIX, Madrid, Perlado Paez y Compania, 1906.

[2] Salvador Rebés, num breve estudo (“Isabel de Liar. Versiones de Milà en la Biblioteca de Menéndez Pelayo” in ELO - Estudos de Literatura Oral, nº 3, Faro, Centro de Estudos Ataíde Oliveira / Universidade do Algarve, 1997, pp.159 a 170.), analisa as notas manuscritas a partir das quais Milà i Fontanals publica no seu Romancerillo uma versão do romance Isabel de Liar e edita oito versões por ele recolhidas no séc. XIX em diversos pontos da Catalunha.

[3] BRAGA, Teófilo, Romanceiro Geral Português, Vol. II e III, Lisboa, Vega, 1982, p. 340/1 e 246/265, respectivamente.

[4] BRAGA, Teófilo, Op. cit., vol. II, pp. 340/341 e CORTES-RODRIGUES, Armando, Romanceiro Popular Açoriano, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1987, pp. 508/510. As diferenças entre os textos dizem apenas respeito à grafia, uma vez que na edição de 1987 esta surge actualizada.

[5] Vid. VASCONCELOS, Carolina Michaëlis de, Romances Velhos em Portugal, Porto, Lello & Irmão - Editores, 1980, pp. 83 e 84.

[6] DI STEFANO, Giuseppe, Romancero, Madrid, Clásicos Taurus, 1993, p. 251 e 258, respectivamente.

[7] DÍAZ-MAS, Paloma, Romancero, Barcelona, Crítica, 1994, p. 167.

[8] LÓPEZ ESTRADA, Francisco, “El romance de Inés de Castro en el cancionero folklórico de Antequera”, Homenaje a Álvaro Galmés de Fuentes, vol. I, Madrid, Editorial Gredos, 1985, pp. 501/507.

[9] Idem, p. 504.

[10] DÍAZ ROIG, Mercedes, El Romancero Viejo, Madrid, Ediciones Cátedra, 1989, p. 86.

[11] Anexo I, p. 1/7.

[12] Idem, v.8.

[13] Idem, v. 11.

[14] Anexo I, p. 4/7, v. 64 e 65.

[15] Anexo I, p. 6/7, v. 43 a 48.

[16] Idem, v. 49 e 50.

[17] Anexo I, p. 7/7, v. 16 a 22.

[18] Idem, v. 23 a 29.

[19] Anexo I, p. 7/7, v. 9.

[20] Cando eu era pequena,/pequena, por me criar, CARRÉ ALVARELLOS, Lois, Romanceiro Popular Galego de Tradizon Oral, Porto, Junta do Douro Litoral, 1959.

[21] Cf. DÍAZ ROIG, Mercedes, El Romancero Viejo, Madrid, Cátedra, 1989, p. 33.

[22] Idem, p. 34.

[23] Cf. NASCIMENTO, Braulio Do, “Processos de Variação do Romance”, Revista Brasileira de Folclore, Rio de Janeiro, 1964, separata, p. 38.

[24] CAMPA GUTIÉRREZ, Mariano de la, Antología de la Poética y el Romancero, Barcelona - Madrid, Grupo Hermes Editora General, 1998, pp. 37/38. Cf. também o texto de CATALÁN, Diego, “Los modos de producción y ‘reproducción’ del texto literario y la noción de apertura”; Op. cit., vol. 1, pp 159/186.

[25] SAID ARMESTO, Víctor, Poesía Popular Gallega, A Corunha, Fundación Pedro Barrié de la Maza, 1998.

[26] Idem, pp. 81, 82, 84, 85 e 86, respectivamente.

[27] A primeira edição de um catálogo exemplificativo surge em castelhano em 1994 em Madrid com o apoio da Universidade Complutense e a segunda edição em galego em 1998 com o apoio da Xunta de Galicia: VALENCIANO, Ana, Los Romances Tradicionales de Galicia: catálogo ejemplificado de sus temas, 2 vols., Madrid, Depº de Filología Románica - Facultad de Filología - Universidad Complutense de Madrid, 1994 e Romanceiro Xeral de Galicia: os romances tradicionais de Galicia - catálogo exemplificado dos seus temas, Madrid / Santiago de Compostela, Fundación Ramón Menéndez Pidal / Centro de Investigacións Lingüísticas e Literarias Ramón Piñeiro, 1998. Note-se que todos os textos da tradição galega referidos no presente estudo serão os incluídos na edição de 1998.

[28] Idem, pp. 178/180.

[29] A propósito do labor desenvolvido por Carré Alvarellos, cf. FORNEIRO, José Luís, “A recolha e estudo do Romanceiro Galego”, in Agália, nº 12, A Corunha, AGAL - Assiciaçom Galega da Lingua, Inverno de 1987, pp. 375/394.

[30] PALOMAR, Salvador e REBÉS, Salvador, Rasquera, Cançons de la Tradició Oral, Carrutxa, Reus, 1990, pp. 71 e 72, respectivamente.

[31] FONTES, Manuel da Costa, O Romanceiro Português do Canadá, Coimbra, Acta Univesitatis Conimbrigensis, 1979, p. XXXVII, 15/16 e 134/135.

[32] Cf. nota explicativa ao texto Yo me estando en Giromena a mi placer y holgar de DÍAZ-MAS, Paloma, Op. cit., p. 163.

[33] Anexo II, p. 1/5. v.1 e p. 3/5, v. 20.

[34] Anexo II, p. 1/5, v. 16 e p. 3/5, v. 9.

[35] Anexo II, p. 1/5, v. 3 e p. 4/5, v. 7.

[36] Anexo II, p. 1/5, v. 13 e p. 3/5, v 15.

[37] Anexo II, p. 3/5, v . 21 a 22 e p. 1/5, v. 17 a 23.

[38] Anexo II, p. 1/5. v.1.

[39] Anexo II. p. 3/5, v. 9 e 10.

[40] Anexo II. p. 1/5, v. 5 e 6.

[41] Anexo II, p. 4/5, v. 9.

[42] Anexo II, p. 1/5, v. 15.

[43] Anexo II, p. 3/5, v. 16 e 17.

[44] SENA, Jorge, “Sobre o Romanceiro Português”, Estudos de Literatura Portuguesa, III, Lisboa, Edições 70, 1988, p. 125/6.

 

ANEXOS

Anexo I - Romances Velhos

Anexo II - Romances da Tradição Oral Moderna

 

Anexo I

Romance de Dona Isabel de Liar (I)

DI STEFANO, Giuseppe, Romancero, Madrid, Clásicos Taurus, 1993, pp. 264/266.

Yo me estando en Tordesillas por mi placer y holgar,

vínome al pensamiento, vínome a la voluntad

de ser reina de Castilla, infanta de Portugal.

4 Mandé hazer unas andas de plata que non de ál,

cubiertas con terciopelo, forradas en tafetán.

Pasé las aguas del Duero, pasélas yo por mi mal,

en los braços a don Pedro y por la mano a don Juan.

8 Fuérame para Coimbra, Coimbra de Portugal.

Coimbra desque lo supo, las puertas mandó cerrar.

Yo triste que aquesto vi, recibiera gran pesar.

Fuérame a un monasterio que estava en el arrabal:

12 casa es de religión y de grande santidad.

Las monjas están comiendo, ya que querían acabar.

Luego yo desque lo supe, embié con mi mandar

a dezir al abadessa que no se tarde en baxar,

16 que la espera doña Isabel para con ella hablar.

La abadesa que lo supo, muy poco tardó en baxar;

tomárame por la mano, a lo alto me fue a llevar,

hízome poner la mesa para aver de yantar.

20 Después que ove yantado, començóme a preguntar

cómo vine a la su casa, cómo no entré en la ciudad.

Yo respondí: - Señora, esso es largo de contar;

otro día hablaremos, cuando tengamos lugar.

1/7

Romance de Dona Isabel de Liar (IIa)

DI STEFANO, Giuseppe, Romancero, Madrid, Clásicos Taurus, 1993, pp. 251/252.

Yo m’estando en Coimbra a prazer y a bel folgar,

por los campos de Mondego cavalleros vi asomar.

Desque yo los vi, mesquina, luego vi mala señal,

4 qu’el coraçón me dezía lo que traían en voluntad.

Cerquéme de mis hijuelos para los buscar,

porque la inocencia d’ellos los moviese a piedad.

Púseme delante el rey con muy grande humildad,

8 tristes palavras diziendo, no cesando de llorar:

- Si no te duele mi morte, duélate la tierna edad

d’estos hijos de tu hijo que avrán de mí soledad.

2/7

Romance de Dona Isabel de Liar (IIb)

DI STEFANO, Giuseppe, Romancero, Madrid, Clásicos Taurus, 1993, pp. 252/255.

Yo me estando en Giromena a mi plazer y holgar,

subiérame a un mirador por más descanso tomar.

Por los campos de Monvela cavalleros vi assomar;

4 ellos no vienen de guerra ni menos vienen de paz:

vienen en buenos cavallos, lanças y adargas traen.

Desque yo los vi, mezquina, parémelos a mirare.

Conociera al uno d’ellos en el cuerpo y cavalgar:

8 don Rodrigo de Chavela, que llaman del Marichale,

primo hermano de la reina, mi enemigo mortale.

Desque yo, triste, le viera luego vi mala señale;

tomé mis hijos comigo y subíme al omenage.

12 Ya que yo iva a subir, ellos en mi sala estáne:

don Rodrigo es el primero y los otros tras él vane.

- Sálveos Dios, doña Isabel. - - Cavalleros, bien vengades. -

- ¿Conocédesnos, señora, pues assí vais a hablare? -

16 - Ya os conozco, don Rodrigo, ya os conozco por mi male.

¿A qué era vuestra venida? ¿Quién os ha embiado acáe? -

- Perdonédesme, señora, por lo que os quiero hablare.

Sabed que la reina, mi prima, acá embiado me hae

20 porque ella es muy mal casada y esta culpa en vos estáe,

porque el rey tiene en vos hijos y en ella nunca los hae.

Siendo como sois su amiga y ella muger naturale,

manda que muráis, señora; paciencia queráis prestar. -

24 Respondió doña Isabel con muy gran onestidade.

- Siempre fuiste, don Rodrigo, en toda mi contrariedade.

Si vos queredes, señor, bien sabedes la verdade:

que el rey me pidió mi amor y yo no se le quise dare,

28 temiendo más a mi honra que sus reinos mandare.

Desque vio que no quería, mis padres fuera a mandare;

ellos tampoco quisieron por la su honra guardare.

Desque todo aquesto vido, por fuerça me fue a tomare;

32 trúxome a esta fortaleza do estoy en este lugare;

tres años he estado en ella fuera de mi voluntade.

Y si el rey tiene en mí hijos, plugo a Dios y a su bondade;

y si no los ha en la reina, es ansí su voluntade.

36 ¿Por qué me avéis de dar muerte pues que no merezco male?

Una merced os pido, señores, no me la queráis negare:

desterréisme d’estos reinos, que en ellos no estaré masé:

irme he yo para Castilla o a Aragón más adelante

40 y si aquesto no bastare, a Francia me iré a morare.-

3/7

- Perdonédesnos, señora, que no se puede hazer máse.

Aquí está el duque de Bavia y el marqués de Villareale,

y aquí está el obispo de Oporto que os viene a confessare.

44 Cabe vos está el verdugo que os avía de degollare;

y aún aqueste pagezico la cabeza ha de llevare. -

Respondió doña Isabel con muy gran onestidade:

- Bien paresce que soy sola, no tengo quien me guardare:

48 ni tengo padre ni madre, pues no me dexan hablare,

y el rey no está en esta tierra, que era ido allén del mare;

mas desque él sea venido la mi muerte vengaráe. -

- Acabedes ya, señora, acabedes ya de hablare.

52 Tomalda, señor obispo, y metelda a confessare. -

Mientras en la confessión, todos tres hablando estáne

si era bien hecho o mal hecho esta dama degollare.

Los dos dizen que no muera, que en ella culpa no hae;

56 don Rodrigo es tan cruel, dize que la ha de matare.

Sale de la confessión con sus tres hijos delante:

el uno dos años tiene, el otro para ellos vae,

y el otro era de teta, dándole sale a mamare.

60 Toda cubierta de negro, lástima es de la mirare.

- Adiós, adiós, hijos míos: oy os quedaréis sin madre.

Cavalleros de alta sangre, por mis hijos queráis mirare,

que el fin son hijos de rey aunque son de baxa madre. -

64 Tiéndenla en un repostero para avella de degollare.

Assí murió esta señora sin merescer ningún mal.

4/7

Romance de Dona Isabel de Liar (III)

BRAGA, Teófilo, Romanceiro Geral Português, Vol. III, Lisboa, Vega, 1982, pp. 264/265.

En Ceuta estava el buen Rey

Ese Rey de Portugal,

Cuando le dieron aviso

De tristeza y de pesar,

Diciéndole que habin muerto

A Doña Isabel de Liar;

Y que lo mandó la Reina

Por su mala voluntad.

Don Rodrigo fué el cruel,

El que llaman Marchal.

Y ese Duque de Salinas,

Y el Marquez de Villareal,

Con el obispo de Oporto,

Que la fuera confesar.

Cuando aquesto supo el Rey,

No hace sinó llorar;

Juraba por su corona

Que le habia de vengar.

Mandó tocar sus trompetas,

El real mandara alzar,

Vistióse todo de luto

Luego se quizo embarcar

Con solo diez caballeros

Que no le quieren dejar.

No quiso aguardar la flota,

Por no se tanto tardar,

Y dentro de siete dias

A Sevilla fué a llegar

Y de alli a pocos dias

Es llegado a Portugal.

Fuese derecho a palacio,

Do solia reposar.

La Reina cuando lo supo

vinose a lo visitar;

Mas el Rey con mucha saña

D’esta suerte le fué á hablar:

- Mal vengades vos, la Reina,

Malo sea vuestro llegar.

En diciendo estas razones,

5/7

La mandó presto tomar,

Y en el mismo repostero

Do su amiga fué a finar,

Mandó degollar la Reina,

Don Rodrigo cuartear,

Y a ese Duque de Salinas,

Y el marquez de Villareal,

Y al buen Obispo de Oporto

Le mandó descabezar.

Hizo sacar a su amiga

Para con ella casar,

Y por heredar sus hijos:

A Don Pedro ya a Don Juan.

Y despues con mucha honra

La mandó luego enterrar;

D’este modo vengó el Rey

A Doña Isabel de Liar.

6/7

Romance de Dona Isabel de Liar (IV)

DÍAZ ROIG, Mercedes, El Romancero Viejo, Madrid, Ediciones Cátedra, 1989, p. 86.

El rey don Juan Manuel - que era en Ceuta y Tanjar

después que venció a los moros - volviérase a Portugal.

Desembarcara en Lisboa, - no va do la reina está,

fuérase para Coimbra - a doña Isabel hablar.

Llegando a la fortaleza - visto había mala señal: 5

que no halló a los porteros - que la solian guardar;

no quiso entrar más adentro, - preguntara en la ciudad

qué era doña Isabel, - qué era de ella o dónde está.

Dijéronle que la reina - la ha mandado degollar

por celos que de ella había - por verla con él holgar, 10

y que cuatro caballeros - lo hubieron de efectuar:

el uno era don Rodrigo, - que dicen del Mariscal,

los otros tres caballeros - no saben quién se serán.

Dos hermanos de la reina - le fueron aconsejar,

que la lleven a Viseo - a su cuerpo sepultar. 15

Desque aquesto oyó el rey - no quiso más escuchar;

fuese donde está la reina, - triste y con gran pesar,

y dende a muy pocos días - la reina caído ha mal.

No le saben su dolencia, - no la aciertan a curar;

muerto se había la reina - de encubierta enfermedad. 20

Después que fue enterrada - el rey a Viseo va,

prender hizo a don Rodrigo - que él solía mucho amar.

Vase a la sepultura - do doña Isabel está,

hecho la había sacar de ella - y luego desenterrar.

Encima de un rico estrado - allí la mandó sentar 25

púsole daga en mano - y a don Rodrigo delante.

El rey le tiene, - de puñaladas le da.

- Aquí os vengaréis, señora, - de quien os hizo este mal.

Luego se casó con ella, - así muerta como está,

porque pudiesen sus hijos - a sus reinos heredar. 30

7/7

Anexo II

Romance de Dona Isabel de Liar
(Tradição Oral Catalã)

PALOMAR, Salvador e REBÉS, Salvador, Rasquera, Cançons de la Tradició Oral, Carrutxa, Reus, 1990, p. 71.

- Estem manats de la reina, que la tenim de matar.

2 - Què li he fet, jo, a la reina, que me fa vindre a matar?

- Vostè del rei tiene hijos, la reina no tiene cap.

4 - Ni jo del rei tengo hijos i la reina no tiene cap.

Antes no me matéis, mi palacio vull rondar:

6 adiós, sillas de plata, ja no m’assentaré más;

adiós, balcón del alma, ja no guaitaré más;

8 adiós, cama de oro, ja no me descansaré más,

y adiós, hijos del alma, ya no me veréis más. -

10 Al cabo de media hora don Conde ja va arribar.

- ¿Dónde van estos romeros, que tan colorados van?

12 - Venim de sacar pilotes, de les més altes que hi han. -

Ya llega don Conde a casa y encuentra los hijos llorar.

14 -¿ Qué hacéis, hijos del alma, a dónde tu madre hi està?

- Mi madre ja n’és muerta, més d’hora i media hi fa:

16 l’han muerto dos romeritos que l’han vingut a buscar.

- Moriran los sentineles, perquè els han deixat passar,

18 i los cuatro caballeros que la llevan a enterrar;

també morirà lo cura perquè l’ha feta enterrar;

20 moriran los escolans que l’han vingut a buscar;

moriran los sepulteros que l’han puesto a sepultar;

22 també moriran les campanes perquè les han fet repicar.

També morirà la reina, que l’ha fet vindre a matar. -

1/5

Romance de Dona Isabel de Liar
(Tradição Oral Catalã)

PALOMAR, Salvador e REBÉS, Salvador, Rasquera, Cançons de la Tradició Oral, Carrutxa, Reus, 1990, p. 72.

-Venim de parte de la reina, que la venimos a matar.

2 - Què li he fet jo a ra reina, que ella a mi me’n vol matar?

- Porque usted del rey tiene hijos, la reina no tiene cap.

4 - Si yo del rey tengo hijos y la reina no tiene cap.

pregunteu-li a Dios del cielo, que li digo la verdad.

6 Antes no me natéis, mi palacio vull rondar:

adiós, silla de plata, sólo el rey se so assentar;

8 adiós, sala de plata, sólo el rey hi solia pasear.

- ¿ Dónde van estos romeros, que tan colorados van?

10 - Anàvem a sacar piloes de les més altes que hi han. -

Ja arriba el rei a casa, ja sent los hijos llorar.

12 - ¿Qué tenéis, hijos del alma, tu madre, a dónde está?

- Mi madre fa que era muerta, más de una hora y média, fa.

14 - Qui l’ha muerto, a tu madre, qui l’ha feta matar?

- L’han muerto dos romeritos que la reina va mandar.

16 - Moriran los romeritos i el que l’ha feta matar:

moriran los escolans i el que l’ha anat enterrar;

18 morirà lo capellà i el que l’ha feta enterrar. -

La mort de donya Isabel trenta-tres morts va causar,

20 i amb la seva trenta i cuatro, que és llàstima de comptar.

2/5

Romance de Dona Isabel de Liar
(Tradição Oral Galega)

VALENCIANO, Ana, Romanceiro Xeral de Galicia - Os romances tradicionais de Galicia, Madrid / Santiago de Compostela, Fundación Ramón Menéndez Pidal / Publicacións do Centro de Investigacións Lingüísticas e Literarias Ramón Piñeiro, 1998, pp. 178/179.

- ¡ Soledad de la Calzada, soledad triste, ay de mí!

2 no tengo padre ni madre, ni quien se acuerde de mí,

sólo tengo un hermanito chiquitito, sin criar;

4 cuando dice: “Mamá, pecho”; cuando dice: “Mamá, pan”;

cuando dice: “Madre mía, ¿a quién me dejas quedar”?

6 Te dejo por esos mundos a quien te quiera llevar;

ve a llamar por el rey que es nuestro hermano carnal;

8 no llames por la reina que te mandará matar. -

Por aquel monte arriba tres caballeros van;

10 uno es el verdugo que me viene a matar,

otro es el confesor que me viene a confesar,

12 otro es don Carlos Quinto el verdugo más criminal.

- Baja, baja, Carolina, déjate de tanto hablar. -

14 Baja la primera escalera, la cabeza se le cae.

Al otro día era jueves, venía el rey de cazar.

16 - ¿De quién es aquel entierro de tanta gente a llorar?

- De la hermosa Carolina que la reina mandó matar. -

18 Al otro día era viernes, venía el rey de cazar.

- ¿De quién es esa cabeza y esos ojos de cristal?

20 - De la hermosa Carolina que la reina mandó matar.

- Id a encender una pipa para la reina empipar;

22 id a derramar un monte para la reina quemar.

3/5

Romance de Dona Isabel de Liar
(Tradição Oral Galega)

VALENCIANO, Ana, Romanceiro Xeral de Galicia - Os romances tradicionais de Galicia, Madrid / Santiago de Compostela, Fundación Ramón Menéndez Pidal / Publicacións do Centro de Investigacións Lingüísticas e Literarias Ramón Piñeiro, 1998, p. 179.

Estando la doña Antonia encima de su pinar

2 vio venir tres caballeros y los tres de par y par.

- ¿Quién son esos caballeros que vienen de par y par?

4 - uno es el confesor que la viene confesar,

otro es el verdugo que la viene a degollar,

6 otro es un señor que los viene a acompañar. -

Estos que oyeron sus hijos empezaron a llorar.

8 - ¿A quién nos deja, madre mía, a quién nos deja quedar?

- Al mundo os dejo ir a quien os quiera criar;

10 no vayáis junto a la reina que os podrá matar,

iros a junto del rey que es vuestro padre carnal. -

12 Estando el rey a comer, estando el reu a xantar,

le cayó una gota de sangre en su corona real.

14 - ¿Qué es esto que me sucede en mi corona real?

O bien mantan a doña Antonia o bien la quieren matar.

16 La muerte de doña Antonia yo la sabré vengar.

4/5

Romance de Dona Isabel de Liar
(Tradição Oral Galega)

VALENCIANO, Ana, Romanceiro Xeral de Galicia - Os romances tradicionais de Galicia, Madrid / Santiago de Compostela, Fundación Ramón Menéndez Pidal / Publicacións do Centro de Investigacións Lingüísticas e Literarias Ramón Piñeiro, 1998, pp. 179/180.

- Siendo yo muy chiquitita, chiquitita sin criar

2 el rey me pidiera amor, yo no se lo quise dar.

Mandó hacer un palacio a las orillas del mar;

4 me mandó tres doncellas para mis hijos peinar.

Un día de gran calor me asomé al ventanal,

6 vi venir tres caballeros por el camino real:

uno era el confesor que me venía a confesar

8 y el otro era el verdugo que me venía a matar.

- Baja abajo, Carolina, que te queremos matar. -

10 Al oír esto sus hijos empezaron a llorar;

unos hijos le decían: “Madre mia, dame pan”;

12 otros hijos le decían: “¿Dónde nos vas a dejar?”

- Os voy dejar en el mundo, la vida más eternal,

14 que, por ser hijos de un rey, la mano os han de echar. -

Al bajar las escaleras, la cabeza al suelo cae;

16 la envuelven en un pañuelo para la reina enseñar.

El otro dia era jueves cuando el rey iba a cazar.

18 - ¿De quién es el entierro que tanta gente llorar?

- Es de doña Carolina que la mandaron matar.

20 - Si es de doña Carolina, un credo le he de rezar.

 

© Natália Albino Pires 2002
Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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